IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA EM PORTUGAL

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Joaquim Fernandes in Linda-a-Velha, 2014 Agosto/13

Em 31 de Janeiro de 1891 rebentou na cidade do Porto uma revolução tendente à implantação da República a qual foi sufocada, tendo sido presos os seus organizadores. A ideia, porém, estava lançada e no dia 1 de Fevereiro de 1908, quando a família real regressava do Alentejo, foram mortos a tiro, no Terreiro do Paço (Praça do Comércio) o rei Dom Carlos e o príncipe real (futuro rei) o infante Dom Luís Filipe, assumindo o poder o príncipe Dom Manuel, um jovem de dezoito anos, sem a necessária preparação para o efeito.

Entretanto, as lutas políticas dos partidos monárquicos deram origem ao desenvolvimento de partidos republicanos o que fez eclodir um movimento revolucionário que implantou a República em Portugal, no dia 5 de Outubro de 1910, pondo assim termo à Monarquia (em Loures a República foi implantada na véspera).
Implantada a República a família real saiu de Portugal, tendo procurado asilo em Inglaterra onde foi acolhida por seu primo Jorge V, que colocou à sua disposição um palácio de vinte divisões, alguns hectares de terreno ajardinado e de caça e criados suficientes para os servir, tendo embarcado na Ericeira a bordo do paquete Amélia. Passado algum tempo o rei D. Manuel II casou com uma princesa alemã, não muito bonita e um tanto estrábica, neta da nossa princesa senhora Dona Antónia, a quem ofereceu como prenda de casamento um diadema de platina cravejado com dois mil e quinhentos diamantes, que o deixou um tanto endividado e que, suponho, faz parte do Tesouro de Portugal.
O rei Dom Manuel II morreu sem deixar descendentes no dia 2 de Julho de 1932, às 13:40 horas, com um edema pulmonar, tendo sido sepultado no Panteão real da Dinastia de Bragança, no Mosteiro de São Vicente em Lisboa, sendo a morte provocada pelo muito que fumava. A partir daí, embora não havendo rei em Portugal, a representação da coroa foi entregue, em minha opinião, indevidamente, à descendência do rei Dom Miguel que havia sido exilado fora de Portugal e sem permissão de usar o nome de Bragança.
Triunfante a revolução chefiada por Machado de Castro foi constituído um governo provisório sob a presidência do Dr. Teófilo Braga que logo publicou as Leis de Registo Civil, do Divórcio, da Família, da Separação da Igreja do Estado, do Inquilinato e do Trabalho entre outras.
Tendo-se procedido à eleição da Assembleia Constituinte para a elaboração e aprovação da Constituição da República que foi aprovada em 18 de Agosto de 1911, foi eleito como Presidente da República o Dr. Manuel de Arriaga.
Em 28 de Maio de 1926 as lutas dos partidos eram uma constante e a indisciplina imperava em todos os serviços administrativos do Estado e no próprio governo, pelo que tal situação não podia continuar sem grave perigo para a Nação e por isso, o Exército tendo à frente o General Gomes da Costa, encerrou o Parlamento e impôs uma ditadura militar em 28 de Maio de 1926.
Cumprida a sua missão a ditadura militar fez aprovar em plebiscito no ano de 1933 uma nova Constituição e eleger a Assembleia Nacional, terminando assim as suas funções, as quais passaram a ser desempenhadas pelo Presidente da República Marechal Óscar de Fragoso Carmona que, em 5 de Julho de 1932 havia nomeado como Chefe do Governo o Prof. Doutor António de Oliveira Salazar. Com a morte do Marechal Carmona, nos anos cinquenta, assumiram o cargo de Presidente da República o General Craveiro Lopes e, posteriormente, o Almirante Américo Tomás.
Quanto à chefia do Governo este foi feito, sucessivamente, pelo Prof. Doutor António de Oliveira Salazar, tendo mais tarde sido substituído pelo Prof. Doutor Marcelo Caetano, dado os graves problemas de saúde por aquele sofridos, tendo-se mantido no lugar depois da sua morte.
Este regime ditaturial e corporativo terminou as suas funções em Portugal, na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, graças à corajosa acção desenvolvida e levada a cabo pelos Capitães de Abril, embora os ideais então manifestados tenham vindo a ser, abruptamente, adulterados, no decurso dos quarenta anos passados desde aquela gloriosa data.

 

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MEMÓRIA DE LINDA-A-VELHA SOBRE O MERCADO MUNICIPAL

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Joaquim Fernandes in 2014/08/01
Estávamos na década de sessenta (século XX) quando chegou à Freguesia de Carnaxide para assumir as funções de Prior, vindo da Igreja de São Pedro no Barreiro, o senhor Padre Francisco Santos Costa, dado a nível religioso ter sido criada a Freguesia de Algés, agregando esta as localidades de Miraflores e Cruz Quebrada/Dafundo, repito, esta alteração foi somente a nível religioso, pois a nível oficial só aconteceu mais tarde, concretamente, nos anos noventa. Assim, Linda-a-Velha continuou integrada em Carnaxide.

Foi precisamente na década de sessenta que alguns vendedores entenderam, por iniciativa própria, estabilizar-se no adro do coreto para fazerem as suas vendas de legumes, peixe, galináceos, roupas, linhas, flores, etc., transformando aquele espaço nobre numa praça de levante, embora os vendedores ambulantes, designadamente, a Zulmira e o José Fazendas peixeiros e a Ludovina com legumes mantivessem os seus clientes habituais.
Linda-a-Velha começou a crescer a partir dos anos cinquenta, as vendas foram aumentando sucessivamente e os vendedores aumentando em conformidade pelo que os peixeiros resolveram mudar de sítio passando, por sua iniciativa para o adro da Capela de Nossa Senhora do Cabo e como as vendas decorriam todos os dias da semana era normal à hora da Missa Dominical as peixeiras apregoarem estridentemente os peixes que tinham para venda o que bastante incomodava e contrariava o nosso Prior dado tal situação prejudicar o ambiente em que, normalmente, decorria a Santa Missa. Depois, havendo, na época, bastantes animais vadios as ditas vendas sugeriam que os gatos e cães frequentassem o local e muitas vezes, na hora da Santa Missa entrassem Capela adentro aborrecendo os assistentes e destabilizando as crianças e quanto ao Prior nem se fala pois os animais subiam até ao altar e por ali andavam à sua volta.
Tentando pôr cobro a esta desagradável situação e também para evitar que as crianças antes e depois da Catequese andassem a correr de adro em adro atravessando a estrada agora com muito mais movimento pois Linda-a-Velha estava a aumentar a olhos vistos, o perigo de atropelamento era uma constante.
Assim, tentando pôr cobro a toda esta situação e ainda porque as peixeiras ao amanharem o peixe deixavam pelo chão as partes inúteis e as águas utilizadas para a sua lavagem, as moscas abundavam naquele local, transformando-o numa perfeita porcaria, quando o Prior as chamava à atenção estas usando uma linguagem desabrida ainda o ofendiam quando afinal estavam usurpando uma área que não lhes pertencia. Assim, resolveu mandar construir o muro que separa aquele adro da Capela da estrada, comunicando à Câmara Municipal de Oeiras a posição assumida e a razão porque o fez e aquela Edilidade ordenou por ofício assinado pelo vereador Senhor Engª Paixão, que o muro fosse demolido num curto espaço de quarenta e oito horas, tendo aquele adro de voltar à situação inicial, dizendo então o dito vereador que o adro era frequentemente utilizado pelos velhinhos que ali iam apanhar Sol e estando o adro fechado isso os impedia, o que até aí nunca se tinha verificado, visto os ditos velhinhos utilizarem mais as tabernas e o velho pontão do que o adro da Capela.
Sendo o Senhor Padre Francisco Santos Costa um homem bastante decidido, que não gostava de ser contrariado nas posições que, ponderadamente, assumia passou pela minha casa, onde aliás ia frequentemente pois bastante gostava dos petiscos que ali lhe eram servidos e, em conjunto, preparámos a resposta ao dito ofício e foi tal a resposta que o muro lá está há mais de cinquenta anos.
Neste entretanto, usando o campo antes utilizado pelo Sporting Clube de Linda-a-Velha para os seus jogos de futebol e os festeiros para a realização das cavalhadas à antiga portuguesa aquando das festas anuais em Honra da Padroeira Nossa Senhora do Cabo, a Câmara Municipal de Oeiras mandou ali construir o Mercado Municipal que depois de construído esteve vários meses para ser inaugurado e, consequentemente utilizado, acabando por ser aberto ao público sem qualquer cerimónia inaugural. Era um bom mercado, com bastantes vendedores e bem abastecido, porém Linda-a-Velha foi crescendo a todos os níveis e com isso vieram alguns supermercados e o mercado municipal foi morrendo aos poucos estando, de momento, reduzido a duas vendedouras de peixe, uma de legumes, outra de galináceos, havendo ainda uma florista e duas senhoras que por vezes vendem roupa e sapatos respectivamente.
Posto o assunto à consideração do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Oeiras para que à semelhança do Mercado Municipal de Algés, inaugurado no ano de 1951, fosse como esse restaurado e dinamizado, tendo o mesmo mandado informar do desinteresse do referido mercado, dado ser a Vila de Linda-a-Velha a que, no Concelho, está mais bem servida de supermercados, tendo, na circunstância, ficado com a ideia que aquele espaço não iria ser destruído mas transformado numa qualquer dependência camarária a favor desta Vila. Quem sabe se é desta vez que Linda-a-Velha vai passar a usufruir de uma Sala de Convívio para que os velhinhos se possam reunir e distrair e uma creche que possa acolher as crianças necessitadas desta terra, permitindo, deste modo, que os progenitores possam, descansadamente, deixar os seus filhos enquanto exercem as suas funções profissionais se, face à crise que estamos enfrentando, ainda tiverem a felicidade de manter emprego.
Sabemos que o País está inacreditavelmente em crise mas como as instalações estão feitas e as respectivas modificações e adaptações certamente não serão muito onerosas, como a sua própria manutenção, entendo, aliás julgo que todos entendem, que a dita crise não pode ser desculpa para tudo e para nada, evitando assim que as ditas instalações acabem por cair de podres.
Deixo este assunto à consideração de quem de direito na esperança de que seja aceite e concretizado em conformidade.

2014/08/01
Joaquim Fernandes

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ALGUNS PORMENORES SOBRE A VIDA DA RAINHA ISABEL DE PORTUGAL

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Joaquim Fernandes in  2014 Julho/10
Seguindo os textos históricos que tenho vindo a apresentar foi-me pedido para escrever alguns pormenores sobre Isabel de Portugal, a nossa Rainha Santa que, embora aragonesa honrou e serviu Portugal e enriqueceu pela sua bondade os altares do mundo inteiro. Assim, atendendo ao solicitado tenho o grato prazer de contar alguns pormenores que julgo de interesse salientar.

A mui nobre, virtuosa e esclarecida senhora Dona Isabel de Aragão era filha de Dom Pedro III e de sua mulher Dona Constança.
Nascida em Zaragoza, a formosa infanta de Aragão teve vários pretendentes dos quais se destacam os príncipes herdeiros de França e Inglaterra mas deu a preferência ao nobre rei de Portugal e Algarve senhor Dom Diniz e por sua vez o jovem rei também não hesitou, pois Isabel era meiga, gentil, talentosa e a aliança entre si e o rei aragonês bastante o favorecia.
Assim, enviados a Aragão os seus embaixadores foram estabelecidas as linhas gerais do consórcio a 24 de Abril do ano de 1281 e assinados os diplomas régios, tendo-se realizado cerca de nove meses depois em Barcelona os assentos nupciais e Isabel atravessou a fronteira de Portugal acompanhada de um luzidíssimo séquito, sendo recebida em Bragança pelo infante Dom Afonso, irmão do rei Dom Diniz que ficou encantado com a sua beleza.
Depois de longa cavalgada chegou a Trancoso onde era aguardada pelo rei Dom Diniz e toda a corte para receberem a rainha e após este cerimonial dirigiram-se todos para o Paço onde se realizou o solene beija-mão a que se seguiram as Bênçãos nupciais acompanhadas ao toque de sinos, várias danças e um excelente banquete e a união foi consumada.
Este o começo de vida de Isabel de aragão como Rainha de Portugal aliás uma vida cheia de percalços, tristezas e desilusões.
Cinco anos passados depois do casamento ainda a coroa não tinha herdeiro e os físicos da corte já falavam da esterilidade da rainha e aconselharam a que seria conveniente uma mudança de ares e de águas e a corte foi transferida para a beira do Mondego em Coimbra.
Apesar da mudança, os tempos passaram e não se verificou qualquer efeito, pelo que o rei andava desesperadíssimo com a situação, sendo entretanto aconselhado a procurar uma qualquer manceba longe de Coimbra que pudesse dar-lhe um filho e dois nomes lhe foram propostos, Aldonça Rodrigues da nobre casa dos Telhas, mulher bastante ambiciosa e interesseira e Grácia Fróes, ambas da Ribeira de Santarém.
Escolhida Aldonça Rodrigues foi assim o assunto tratado no mais completo sigilo para que não chegasse aos ouvidos da rainha e nasceu o bastardo Afonso Sanches no ano de 1288, situação que logo chegou ao conhecimento da rainha, a qual, desgostosa, adoeceu gravemente, pensando que tudo isto acontecia pelos seus pecados.
No ano de 1290 Dona Isabel deu à luz a infanta Dona Constança, porém Dom Diniz encantado pelos afagos do bastardo Afonso Sanches recebeu, friamente, a notícia do nascimento desta filha e, instigado pela intrigas de Aldonça Rodrigues, que com este nascimento via fugir-lhe a coroa ao seu filho, inventou as mais diversas histórias e mentiras em desfavor da rainha o que trazia o rei bastante pensativo, porém, no ano de 1291, em 8 de Fevereiro, nasceu nos velhos Paços de Coimbra o legítimo sucessor da coroa de Portugal e Aldonça Rodrigues ficou roída de inveja e redobrou nas intrigas e falsidades contra a rainha e numa das sua intrigas afiançou que este novo rebento da rainha não era filho do rei mas do seu pajem Ramiro Sanches que a acompanhou desde Espanha e ainda pertencia à nobreza, havendo entre ambos uma confiança fora do normal e a mentira depressa se espalhou.
Neste entretanto, um outro filho bastardo de Dom Diniz e Graça Fróes nasceu, sendo-lhe atribuído o nome de Pedro que, mais tarde, se colocou ao lado da rainha Dona Isabel, sendo um aliado de grande valor, tendo herdado do seu pai o gosto pelas letras.
Acreditando na mentira de Aldonça Rodrigues sobre a infidelidade da rainha resolveu castigar duramente este pajem e numa grande fúria de desespero ordenou ao forneiro de Coimbra que cozia o pão para abastecimento da cidade que mantivesse o forno bem quente ao rubro, com a indicação que aquele que o for procurar e lhe perguntar se cumpridas foram as ordens de el-rei o meter, de imediato, dentro do forno, situação que apesar do sigilo em que o assunto decorreu foi do conhecimento de Aldonça Rodrigues que ficou satisfeitíssima!
Entretanto, o rei chamou o pajem a quem ordenou o fatal recado. Acontece que o referido pajem era um moço honesto e extremamente religioso, senão que fanático pelo que Aldonça Rodrigues escolheu mal, na sua mentira, o amante para a rainha.
Seguindo as instruções do rei o forno estava aquecido ao rubro mas o tempo ia decorrendo sem que o condenado aparecesse e Dom Diniz esperava, ansiosamente, pelos resultados da sua ordem sentencial, porém o pajem Ramiro Sanches muito antes de abeirar-se do desconhecido local do suplício entrou num Santuário onde os sinos apelavam chamando à Santa Missa e ingressou avidamente no templo onde era rezado um trintário que estava a começar. Trinta padres sufragavam a alma de um homem rico que se havia finado e o pajem ouviu dez das missas e tão embevecido estava com as coisas do Céu que tarde se lembrou das ordens do rei para o forneiro e, independentemente disso ainda passou por outro templo onde os sinos apelavam à oração.
Neste entretanto, o servidor do rei e cúmplice de Aldonça Rodrigues que nada sabia do que se tratava, a pedido daquela procurou o forneiro para lhe perguntar se as ordens do rei foram cumpridas efectivamente e o forneiro homem alto e abrutalhado julgando ser o tal pajem por quem esperava sorrindo disse-lhe: “ sim cumpri, vem ver” e este abeirando-se do forno o forneiro pegou-lhe pelas pernas e lançando-o lá dentro fechou de imediato a porta enquanto o seu corpo era reduzido a pó e pensou: “ que delito teria feito este pajem para que o rei assim o castigasse”. Nesta altura chegou ao forno o pajem Ramiro Sanches que lhe perguntou se cumpridas foram as ordens de el-rei e o forneiro respondeu-lhe:-“ cumpridíssimas senhor pajem e estas horas já o miserável está reduzido a pó” e o pobre do pajem encolheu os ombros agradeceu a informação e regressou ao Paço, informando o rei em conformidade, isto perante a perplexidade e admiração do rei que ficou sem palavras. Refeito da situação procurou saber do pajem tudo o que se havia passado e este contou, escrupulosamente, o que sucedeu e o rei ao despedir-se dele só exclamou: – “Meu Deus, meu Deus!” e o caso ficou por aqui.
Durante a sua vida exemplar a nossa Rainha sempre procurou evitar as guerras entre o marido e o seu filho legítimo originadas pela cobiça do seu filho bastardo que via fugir-lhe o tão ambicionado trono.
Conta-se ainda que quando exilada em Alenquer por determinação do rei, a rainha mandou ali construir uma Capela, ainda existente, em Louvor do Divino Espírito Santo e acontece que numa das alturas em que pretendia pagar aos obreiros não tinha dinheiro para fazê-lo e então, ofereceu a cada um deles, uma das rosas de um grande ramo que um jovem lhe havia oferecido momentos antes e estes pelo respeito eu tinham para com a rainha não contestaram e com espanto verificaram, no dia seguinte, que no local onde puseram a rosa a mesma havia sido substituída por uma moeda de ouro. Esta linda e histórica Capela há anos que está sendo cuidada pela minha velha amiga Maria Amélia Marques que, apesar dos seus 84 anos continua a fazê-lo com todo o carinho, tendo a sua festa maior em cada dia de Pentecostes, este ano foi a mesma presidida por Sua Excelência Reverendíssima o Patriarca de Lisboa Senhor Dom Manuel Clemente, segundo aquela me informou.
Ainda outro pormenor, embora que lendário, a nossa rainha aquando da construção do Convento de Santa Clara em Coimbra sob a sua responsabilidade, lembrou-se de ir pagar aos obreiros pelas suas próprias mãos os seus salários, levando no regaço o dinheiro necessário e, inesperadamente, viu o rei que lhe perguntou o que levava no regaço. Isabel querendo encobrir o que levava de facto respondeu: – “ Rosas são senhor meu” e o rei estranhando retorquiu: – “ Rosas no Inverno!? Deixai-me vê-las Isabel.” A rainha ficou perplexa mas não teve outro remédio senão fazer o que lhe era ordenado e ao fazê-lo em vez de dinheiro caiu um bom punhado de rosas de inebriante odor, perante a admiração do rei.
Muito mais havia a contar sobre esta rainha mas concluímos que depois da morte do rei no ano de 1325 sepultado no Convento de Odivelas que ele mandou construir, a rainha Isabel decidiu vestir o hábito da Ordem de Santa Clara mais por tristeza que por vocação, até porque tinha muita idade e se encontrava doente, mas mesmo assim nos últimos anos da sua vida ainda teve de suportar muitos trabalhos e dissabores pelas revoltas travadas entre o seu filho rei Dom Afonso IV e o irmão o bastardo Afonso Sanches e também pela sua neta Dona Maria maltratada pelo marido Afonso 11º de Castela provocados pelos seus amores por outra mulher a Leonor de Gusmão e a guerra travada pelo seu filho e o próprio sogro rei de Castela. Perante todos estes dissabores e a sua própria doença acabou por cair, gravemente, em Estremoz onde exalou o último suspiro na noite de 4 de Julho de 1336, sendo sepultada no seu Convento de Santa Clara em Coimbra onde esteve cerca de 500 anos sendo os seus restos mortais transladados para o novo Convento da mesma Ordem salvo erro durante o reinado do nosso rei Dom Pedro II, encontrando-se num túmulo de prata colocado sobre o altar-mor. Isto dado o velho Convento ter sido em parte afundado pelas águas do Mondego.
Poucos anos após a sua morte, suponho que nove, foi esta Rainha canonizada e elevada à Glória dos altares, sendo venerada no mundo inteiro como Isabel de Portugal.
Finalizo este historial dando a conhecer que tive o privilégio de ter em minhas mãos e beijado o lençol de linho onde o seu corpo foi tumulado o qual agora se encontra em redoma de vidro, no Museu do referido convento. Quanto ao seu anterior túmulo, encontra-se no velho Convento de Santa Clara e embora vazio, é local de veneração.

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HISTORIAL SOBRE ANTÓNIO PRIOR DO CRATO

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Joaquim Fernandes in Linda-a-Velha, 2014 Junho/ 17

Sendo António Prior do Crato uma figura histórica que muito considero e aprecio que merece ser lembrado pelo seu patriotismo, humildade e valor moral entendi preparar este historial sobre a sua vida.

Violante Gomes era a filha mais velha de Pero Gomes, residente em Moncorvo, descendente de judeus mas integrado numa família de cristãos novos.
Era uma jovem de dezoito anos cujos dotes físicos eram notados pela sua invulgar beleza. Era alta de fortes tranças negras e sedosas, olhos verdes e seios salientes e arfantes, vestindo, normalmente, roupas brancas e vaporosas, sendo muitas as propostas de casamento que recusou, pois o seu sonho era encontrar o príncipe encantado com que frequentemente sonhava.
Sua Alteza Real o príncipe Dom Luís Duque de Beja, filho do Rei Dom Manuel, o Venturoso e de sua segunda mulher a rainha Dona Maria, com vinte e três anos de idade, sendo excelente cavaleiro, amante pela caça e poesia e ao longo da sua curta idade recusou casamento com variadíssimas e ricas princesas entre estas Maria Túdor rainha de Inglaterra e Edwiges que foi rainha da Polónia.
Um dia andando numa caçada na zona de Moncorvo decidiu descansar, farto como andava de albergarias e pousadas, procurou fazê-lo no castelo de Mendo Curvo que, muito embora fossem cinco horas da manhã de um Domingo, o recebeu, bem como aos seus companheiros, com todas as honrarias, disponibilizando, de imediato, aposentos para todos e, inclusivamente para os cavalos.
Envergando outras roupas que não as de caça assistiu à Santa Missa na Basílica do burgo. Entretanto, sabendo-se da presença do jovem príncipe, ranchos de raparigas caminharam para o Templo para vê-lo e foi aqui que a jovem Violante Gomes foi vista pelo príncipe que por ela logo se apaixonou. Por sua vez a jovem Violante também sentiu no seu coração algumas palpitações mas afastou-se rapidamente das vistas perscrutadoras do infante embora este jamais a esquecesse e desejava a todo o momento encontrar-se com ela para revelar-lhe a sua paixão.
Procurando-a na sua residência falou-lhe do seu amor e logo assentaram o casamento que em nada agradou à família real mas, apesar disso, o mesmo foi mesmo realizado numa pequena Ermida do burgo e de noite para que o enlace se mantivesse em segredo.
Uma vez casados a residir no paço em casa própria a jovem Duquesa de Beja era mantida com todas as grandezas embora os seus inimigos a apelidassem de borregã do príncipe Dom Luís.
Passados alguns meses nasceu o príncipe Dom António que se desenvolveu a olhos vistos, tornando-se um príncipe muito culto, tendo passado por Coimbra onde se doutorou em artes, assumindo mais tarde o cargo de Grão Prior do Crato. Porém, o Cardeal Dom Henrique seu tio inimizou-se com ele visto pretender que este recebesse votos sacerdotais o que sempre recusou.
Anos passaram e Violante Gomes cansada das intrigas em seu desabono combinou com o marido encerrar-se no Convento de Almoster, onde mais tarde acabou por professar, sendo frequentemente visitada pelo seu filho António.
No ano de 1555 faleceu Dom Luís deixando inconsolável no Mosteiro a sua mulher que lhe sobreviveu ainda por um espaço de catorze anos.
Tendo morrido o Rei Dom João III no ano de 1557, cujo filho havia morrido antes numa queda de cavalo assumiu a regência do reino sua mulher a rainha Dona Catarina, visto o neto Dom Sebastião ser ainda uma criança e durante a sua regência foi bastante apoiada pelo seu sobrinho Dom António que muitas vezes contrariou as ideias manifestadas pelo Cardeal Dom Henrique que detestava este sobrinho.
Entretanto Dom Sebastião assumiu a coroa de Portugal com catorze anos no ano de 1568. Muito jovem, inexperiente, com gostos um tanto fora do vulgar, muitas vezes mal aconselhado por elementos de que se fazia rodear, extremamente ambicioso e com espírito de conquista fez Portugal enfrentar a Batalha de Alcácer Quibir levando consigo a fina flor da juventude portuguesa e devastando todos os bens materiais possíveis e imagináveis mas, infelizmente, nada aconteceu conforme os seus desejos e aspirações e ali perdeu a vida com muitos daqueles que o acompanharam e Portugal caiu, desastrosamente, sobre o capim africano e os que não morreram ficaram como reféns durante longo tempo com o próprio António Prior do Crato.
Como o Rei Dom Sebastião morreu sem deixar herdeiros directos foi aclamado rei o tio Cardeal D. Henrique, um velho caquético e imbecil com setenta anos de idade, no dia 28 de Agosto de 1578 que não soube preparar a sua sucessão. Entretanto Portugal estava paupérrimo de valores humanos e materiais, o que levou Filipe II de Espanha, neto do Rei Dom Manuel por parte da sua filha Dona Isabel, ainda antes da morte do tio, que ansiosamente esperava, começar a preparar a usurpação do trono de Portugal comprando as mentalidades de alguns portugueses pouco patriotas e escrupulosos, capitaneados pelo bandido Cristóvão de Moura.
Morto o Cardeal-Rei no dia 31 de Janeiro de 1580 apresentaram-se como candidatos ao trono Filipe II de Espanha, António Prior do Crato, Catarina Duquesa de Bragança e Manuel Felisberto Duque de Saboia, todos netos do Rei Dom Manuel e ainda Rainúncio príncipe de Parma, filho da Duquesa Catarina, Isabel de Inglaterra e o próprio Papa Gregório 13º visto entender que o ceptro real constituía espólio de um Cardeal e por isso lhe pertencia.
Embora alguns destes candidatos tivessem mais ou menos direitos ao trono de Portugal o povo deu a preferência a Dom António Prior do Crato e aclamou-o Rei, jurando morte aos espanhóis e a todos aqueles que se venderam e Dom António I governou Portugal durante três meses tendo chegado a cunhar moedas e foi ao som de grandes aplausos que entrou no Paço de Lisboa.
Porém, os espanhóis não pararam, antes pelo contrário, e no dia 25 de Agosto de 1580, comandados pelo perverso Duque de Alba encontraram-se em Alcântara com o reduzido exército de Dom António constituído por cerca de quatro mil homens válidos recrutados pelas ruas e conventos não preparados que nada fizeram perante o numeroso exército espanhol devidamente apetrechado e organizado.
A luta travou-se mas Dom António vendo morta e em fuga a maioria da sua gente e ele próprio ferido no rosto caiu por terra abandonando a contenda tendo-se refugiado em Linda-a-Velha no Casal da Ninha (actualmente Palácio dos Aciprestes), enquanto os espanhóis à força bruta lhe arrancaram, violentamente, o lugar que legitimamente lhe pertencia.
Fugiu para Santarém e depois para os Açores e aí foi aclamado Rei em algumas ilhas, posteriormente partiu para França onde faleceu, ficando o seu corpo sepultado no Convento de São Francisco, enquanto Filipe II de Espanha foi aclamado Rei de Portugal como Filipe I, nas Cortes de Tomar em Dezembro de 1580.
Por causa da ganância e perversidade de um rei espanhol, Portugal perdeu um brilhante rei como teria sido Dom António I que nunca se quis vender ao seu primo apesar das muitas propostas que lhe foram feitas, perdendo Portugal a sua independência.
Em Portugal ficaram os filhos de Dom António, entre estes o Príncipe Real Dom João de Portugal que, embora herdando dos pais a honestidade, humildade e excelente carácter, os espanhóis sempre ignoraram.

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CULTO DE NOSSA SENHORA DO AMPARO NA FREGUESIA DE CARNAXIDE

Procissão de N.S.Amparo

Joaquim Fernandes in Linda-a-Velha, 2014 Maio/31
Até aos anos noventa (século XX) Linda-a-Velha estava oficialmente integrada na Freguesia de Carnaxide, considerada a segunda Freguesia do Patriarcado de Lisboa, na época a maior do Concelho de Oeiras.

Serve este preâmbulo para ilustrar o facto de incluir este historial nas memórias de Linda-a-Velha, além de eu próprio pertencer à Freguesia de Carnaxide, onde, a nível religioso bastante trabalhei.
Assim, consta-se a propósito das festividades celebradas em Honra de Nossa Senhora do Amparo, cuja imagem se venera na Igreja de São Romão, antes Paroquial, que as mesmas estão relacionadas com um voto solene feito pelos paroquianos no dia um de Novembro de 1755, dia de Todos os Santos, aquando do grande terramoto que nesse dia aconteceu na cidade de Lisboa, embora os consequentes estragos se verificassem em variadíssimos locais deste País.
Segundo declarações prestadas e escritas pelo Pároco de então Padre Sebastião Rodrigues a Igreja regorgitava de fiéis que assistiam à Santa Missa quando às 09:05 horas da manhã um forte rugido subterrâneo fez tremer todo aquele lindo templo como se fosse uma árvore agitada pelo vento e de repente a abóboda onde se encontrava pintada uma lindíssima Imagem de Nossa Senhora da Conceição rodeada de anjos abriu em toda a sua extensão deixando a descoberto o céu pardacento e ameaçando cair a todo o momento, o que iria engrossar o número de mortos que o dito terramoto provocou, segundo estatísticas da época fixado em cerca de quarenta mil pessoas.
O povo aterrorizado levantou-se de imediato e em altos gritos de pânico e terror gritou em uníssono pela protecçao de Nossa Senhora do Amparo, cuja imagem ainda hoje ali se venera e, em grande fervor, pediu que os protegesse e amparasse naquela hora de aflição.
Um novo abalo se seguiu e a abóboda uniu-se fortemente não se desprendendo como tudo fazia supor embora ficando altamente danificada.
Entretanto, por todo o lado o chão fende-se, caindo por terra milhares de habitações convertendo-se em catacumbas dos seus habitantes e os gritos de horror e de lamento são horripilantes. O mar crescendo e rugindo como um animal raivoso ameaçava a todo o momento invadir a terra, enfim, foi um indiscritível terror, mas no caso dos paroquianos de Carnaxide pela graça de Nossa Senhora do Amparo conseguiu sair ileso do Templo sem que nada de mal lhe acontecesse.
Em sinal de agradecimento e gratidão por não ter perecido debaixo dos escombros da Igreja em que, à semelhança dos outros se tornaram, logo fez um voto solene de transportar aquela milagrosa Imagem aos ombros em procissão a realizar todos os Domingos de Pascoela o que aconteceu logo a partir de 1756 e todo o povo chorava de emoção e agradecimento a Nossa Senhora pelo grande milagre concedido.
O rei D. José conhecedor desta grande graça visitou este Templo acompanhado do seu Ministro Sebastião José de Carvalho e Mello, inteirando-se de toda a situação e logo ali decidiu custear todas as despesas com a sua recuperação, mandando construir na altura o Chafariz que ainda hoje ali se encontra e a cuja inauguração ambos assistiram.
O cumprimento deste voto foi interrompido no ano de 1910, ano em que foi implantada a República Portuguesa e muitas Igrejas foram encerradas e esta não fugiu à regra tendo as suas portas sido trancadas com madeiras pregadas e assim se manteve durante vários anos, até que um grupo de bondosas e determinadas senhoras se resolveram arrancar as madeiras das portas e, uma vez dentro da Igreja, limparam-na cuidadosamente e, enfeitando o andor de Nossa Senhora do Amparo levaram-na em ombros pelas ruas da Freguesia cantando e rezando em seu louvor, embora muito povo receoso fechasse ostensivamente as janelas à sua passagem, situação que se manteve durante anos.
A partir daqui continua a cumprir-se, solenemente, aquele voto que um dia, no momento de dor, aflição e de pânico, foi feito a Nossa Senhora.
Das muitas Graças recebidas consta ainda que, muito antes do terramoto, um homem que transportava lenha num carro puxado por um boi ao atravessar a praia da Cruz-Quebrada, o dito carro foi arrastado pelas ondas. Em grande aflição o pobre homem invocou a protecção de Nossa Senhora do Amparo e as ondas devolveram o carro seguindo o homem o seu caminho são e salvo.
É uma pena que esta linda Igreja de tantas tradições e memórias não seja devidamente restaurada, embora pense que isso chegou a ser prometido pela Câmara Municipal de Oeiras e a abóboda agora pintada a branco não volte a ostentar aquela linda Imagem de Nossa Senhora da Conceição rodeada de Anjos.
Nesta Igreja se baptizaram e casaram muitos dos meus familiares, designadamente os meus avós maternos Teresa e Daniel no ano de 1899, os meus pais no dia 6 de Agosto de l933 e eu próprio ali fiz a minha comunhão solene de profissão de Fé e recebi o Sacramento do Crisma no dia 31 de Maio de 1945. Estes entre muitas outras memórias que me são muito gratas recordar.

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O Velho Chafariz.

 

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Joaquim Fernandes in Linda-a-Velha, 2014 Maio/05
Nesta sequência de memórias de Linda-a-Velha de outros tempos em que esta terra não passava de uma pequena aldeia cheia de sol e cor, guardámos, propositadamente, para o fim este historial sobre o nosso saudoso chafariz, situado na calçada a que deu o nome.

Mandado construir no ano de 1821 por Francisco Duarte Coelho, Desembargador da Relação do Paço e Ministro da Fazenda, era natural de Linda-a-Velha e um dos homens célebres no reinado de D. João VI.
Junto dele ficavam os tanques públicos para a lavagem da roupa que as mulheres utilizavam diariamente e onde tantas histórias foram vividas e contadas.
Foi este chafariz construído no sítio onde antes existia uma pequena bica, tendo a mina oitenta palmos e o encanamento duzentos palmos, importando a obra em 2.655,590 reis conforme refere Veloso de Andrade na sua memória sobre Chafarizes de 1851.
É evidente que não era na época a única fonte de abastecimento de água pois havia ainda dois poços de abastecimento público, cobertos e apetrechados com bomba de ferro, situados na Estrada do Carrascal, uma estrada de terra batida (actual Avª 25 de Abril de 1974, antes Avª Dr. Oliveira Salazar).
Se é que o chafariz era utilizado para o abastecimento de água das pessoas residentes na zona, seria mais para os animais se dessedentarem. Era normal nos finais dos dias verem-se ali os ovinos e os bovinos a beber água, animais estes que pertenciam aos grandes lavradores deste terra. Depois era também este chafariz que abastecia de água os tanques públicos.
Linda-a-Velha era uma terra feliz e sem grandes ambições até ao ano de 1951 em que foi dotada de abastecimento público de água, começando por ser tapados e entulhados os muitos poços por aqui existentes nas diversas quintas e quintais, sendo construído então um fontanário no Jardim Conde Rio-Mayor (Rua Eng. José frederico Ulrich).
Entretanto, o progresso foi avançando a todos os níveis e o chafariz, o nosso velho chafariz foi demolido com a promessa de reconstrução para o que as suas seculares pedras foram numeradas e catalogadas. Os anos passaram e a promessa nunca se concretizou, falando-se à boca pequena que as ditas pedras constituem os alicerces de um qualquer prédio da Calçada do Chafariz. Será verdade? O certo é que dele apenas existe a memória. Inclusivamente, até o fontanário construído no ano de 1951, que mais tarde mudou de lugar para a Rua Fontes Pereira de Melo, deixou de existir.
Há tempos, mais concretamente no princípio do corrente ano solicitámos do Presidente da Câmara Municipal de Oeiras Exmº Sr. Dr. Paulo Vistas a instalação de dois bebedouros públicos nesta Vila onde nada existe para que as pessoas se possam dessedentar, aproveitando para fazer uma breve resenha sobre o passado histórico desta terra antes tão farta de água e água excelente.
Tivemos oportunidade para referir dois locais para a respectiva instalação respectivamente, no Largo da Igreja Paroquial frequentada por umas boas dezenas de crianças e não só e no Jardim Conde Rio-Mayor onde normalmente se reúnem os idosos visto, lamentavelmente, esta Vila não possuir qualquer sala de convívio ou lugar adaptado ao efeito.
Por ofício foi-nos informado que a instalação de um fontanário estava fora de causa pois normalmente são vandalizados mas quanto aos bebedouros iria ser estudada a sua localização. Passaram meses e dos bebedouros nem sombra. Será que o dito estudo é assim tão complicado?
Na altura solicitámos o apoio da nossa Junta de Freguesia, bem como da Liga dos Amigos de Linda-a-Velha que, não se tendo manifestado, tudo nos leva a crer que nada fizeram, tendo, necessariamente de pensar do desinteresse destas entidades no benefício solicitado. Apesar de tudo continuo esperançado que, na circunstância, acabe por imperar o bom senso.
Quanto à vandalização dos fontanários e chafarizes é possível que isso não viesse a acontecer em Linda-a-Velha pois o povo não será muito diferente do de Carnaxide, Linda-a-Pastora, Rocha, Paço d’Arcos etc. que ainda hoje mantêm os seus chafarizes e nada aconteceu. Poderão de facto ter água de má qualidade mas isso deve-se, certamente, ao desleixo das entidades responsáveis que não procedem à respectiva limpeza, mas que o povo os exibe orgulhosamente e fazem parte das suas memórias é um facto.
A aldeola pitoresca, pacata de ar sadio deu lugar à linda Vila de Linda-a-Velha mas, lamentavelmente, muitas deficiências se encontram e algumas bem fáceis de solucionar.

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O senhor Edgar…

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Joaquim Fernandes in Linda-a-Velha, 30 de Abril de 2014

O Sr. Edgar era um homem de semblante rude mas muito trabalhador, casado com Maria de Jesus e pais de um filho, residente, penso que desde sempre, na Estrada da Rocha. Era um homem de taberna nas horas vagas, como aliás quase todos os homens da época (anos quarenta/sessenta do século XX) pois, na falta de outra, seria essa a sua distração, bebiam um copito, comiam qualquer coisa, jogavam alguns jogos por lá existentes, designadamente cartas, xadrez, dominó, matraquilhos, etc. e falavam da vida alheia quer à porta da taberna, quer sentados no velho pontão que separava a Rua Tomás Ribeiro da Rua Fontes Pereira de Melo esta em plano inferior. Com a destruição deste pontão, deste velho pontão, desapareceram para sempre histórias de vida que ali foram vividas e contadas que o tempo apagou.

Mas voltando ao Sr. Edgar este tinha por mim o maior respeito como aliás a grande maioria dos habitantes desta terra, talvez pelo meu modo de vida ou porque não fazia vida de taberna.
Um dia estavam à porta da taberna Mitra ainda existente, embora com outro cariz, um bom número de homens bebendo, fumando e dando largas ao seu palavreado um tanto depravado e asneirento. Era meu hábito, sempre que passava, cumprimentar um a um todos os indivíduos presentes e inteirar-me da sua saúde. Nesse dia, era sábado, eu encaminhava-me para a Capela a fim de dar uma aula de Catequese e eis que ouvi nitidamente o Sr. Edgar dizer aos demais, cuidado com a língua que vem aí o filho do Aires, o meu pai era igualmente um homem muito querido e respeitado nesta terra e não só e àquela voz de comando do Sr. Edgar todos se calaram e eu passei e, como normalmente, a todos cumprimentei seguindo o caminho da Capela onde as crianças me aguardavam.
Feita a oração inicial antes da aula aproveitei para, silenciosamente, agradecer a Deus aquele gesto de deferência e respeito para comigo que não passava de um jovem, um cachopo com pouco mais de dezassete anos enquanto eles eram homens feitos e pais de família.
Um dia, encontrando o Sr. Edgar à porta da sua casa procurei agradecer-lhe a cortesia tida para comigo e este disse-me tu és diferente e eu gosto muito de ti. Neste espírito de cordialidade aventurei-me e falei de Jesus ao que ele me disse desculpa meu filho mas eu não acredito em nada dessas coisas e até tenho pena que andes envolvido nisso e sejas tão beato, olha dedica-te mais ao teatro que tens jeito. Na altura eu fazia teatro amador na nossa Academia Recreativa integrado num dos grupos residentes “Os Infantes” pois ainda não frequentava o Conservatório Nacional e acrescentou eu sou teu amigo e quero continuar a sê-lo, portanto não insistas nessas coisas. Não insisti embora não seja muito de desistir à primeira e às vezes, muitas vezes nem à segunda, aguardando sempre a melhor oportunidade. Quando tenho razão eu bato-me pela ideia mas, na circunstância não era oportuno insistir e prometi a mim mesmo voltar ao assunto.
A vida seguiu o seu ritmo e a conversa nunca se proporcionou porque entretanto entrei no Conservatório mantendo a Catequese aos sábados e nas horas vagas dava explicações das matérias escolares aos meus alunos da Catequese quase todos meus afilhados do Sacramento do Crisma. A minha vida modificou-se muito pois ainda quando aluno do Conservatório tinha chamadas para colaborar em diversos espectáculos promovidos pela grande actriz/cantora e professora de piano Corina Freire, pela pianista e compositora Maria Helena de Carvalho e pelo produtor de espectáculos Marques Vidal entre outros.
O Sr. Edgar envelheceu, a mulher igualmente e ambos deixaram de trabalhar e como durante grande parte da sua vida activa não havia Segurança Social e quando esta foi criada este fez questão de nunca pagar as respectivas contribuições, não lhe foi atribuída qualquer pensão de reforma.
Entretanto eu já tinha terminado o Conservatório e ultrapassado a minha curta passagem pelo teatro profissional, e estando empregado no Sindicato dos Empregados de Escritório, quando o Sr. Edgar me procurou para ver se conseguia arranjar-lhe uma pensão a fim de fazer face à vida, pois, nessa altura já a sua mulher também havia deixado de exercer as funções de colarinheira.
Embora pretendendo ser simpático e aceder ao desejo do Sr. Edgar não via hipóteses de o conseguir e disse-lhe das dificuldades uma vez que ele não tinha feito quaisquer descontos para a Segurança Social mas não desistindo pus-me em campo tendo conseguido que a Segurança Social com a intervenção dos Serviços da Inspecção do Trabalho obrigasse a sua anterior entidade patronal a proceder aos descontos não efectuados em devido tempo e ao Sr. Edgar foi atribuída uma pensão de reforma, a pensão que tanto ambicionava embora pequena como todas na época, mas pelo menos tinha aquele mínimo para fazer face à vida e agradecendo muito, eu disse-lhe que o fiz com muito gosto e não era motivo de agradecimento.
A velhice avançou e já nos finais da sua vida eu visitei-o na sua residência e mais uma vês procurei falar-lhe de Jesus e da imortalidade da alma e, consequentemente, na vida para além da morte e eis que este me disse olha meu filho e bom amigo eu sempre te disse que não acreditava em Deus talvez porque nasci numa época diferente da tua, tu sabes, eram outros tempos em Linda-a-Velha, em que muitos de nós nem pela escola passámos e começámos a trabalhar muito cedo. Eram tempos em que a cultura era secundária mas posso garantir-te que sempre acreditei em Deus e creio que a vida não fazia sentido se tudo acabasse com a morte só que sempre o ocultei por vergonha dos outros que por certo me afastariam do seu convívio. Aventurei-me a que fosse ouvido por um Sacerdote sobre aquele problema do respeito humano e tentei que o nosso Prior Senhor Padre Manuel dos Reis Escudeiro a residir em Algés o ouvisse em confissão mas este finou-se sem que tal acontecesse e eu pedi a Nosso Senhor que o perdoasse uma vez que teve a coragem de revelar esta sua falta e o recebesse em Sua Glória.
Já lá vão muitos anos mas entendi oportuno relatar esta passagem da minha vida, de modo particular para todos aqueles que, lamentavelmente, sofrem de respeito humano se revelem sem vergonha dos outros, com coragem, deem a conhecer a sua fé e acreditem que serão mais felizes.

 

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