HISTORIAL SOBRE AS QUINTAS MAIS IMPORTANTES DA FREGUESIA DE CARNAXIDE E ALGUNS PORMENORES, DE RECONHECIDO INTERESSE, EM RELAÇÃO À ORIGEM DA REGIÃO DE LINDA-A-VELHA.

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Joaquim Fernandes in 2014/09/03

Tendo-me sido pedido para falar das grandes quintas da Freguesia de Carnaxide em que Linda-a-Velha esteve integrada até à década de noventa do século vinte, passo a referir aquelas que considero mais importantes:

Quinta dos Grilos/Carnaxide
Geograficamente pertenceu a Linda-a-Velha durante vários anos.
Esta quinta foi fundada no ano de 1256 pelos frades Agostinhos, tendo como Patrono Santo Agostinho, que normalmente escolhiam meios rurais para viverem.
Esta quinta e o palacete existente chegou a ser residência oficial do Senhor Dom António Baptista de Sousa, Visconde de Carnaxide que remodelou todo aquele espaço no inicio do século vinte.
A quinta assumiu o nome de Grilos na segunda metade do século dezanove quando habitada por uma família de nome Grilo.
Já nos nossos dias foi habitada por uma família estrangeira e chegou a funcionar como Fábrica de Conservas.
Quinta dos Salles/Outurela
Era conhecida pela quinta dos Cónegos por ser habitada por elementos da Igreja, isto no decurso do século dezoito, embora a quinta já existisse.
Chegou a funcionar com frades Lóios mas depois da extinção da sua Ordem, isto na primeira metade do século dezanove foi habitada pela família Salles e no decurso do século vinte, dadas as suas excelentes águas, foi ali instalada uma fábrica de pirolitos, com a característica da tampa das garrafas ser um berlinde que ao empurrar-se a garrafa abria, passando, então, a ser conhecida pela quinta de São Marçal.
Quando ainda criança, pouco mais teria de cinco anos, lembro-me não sei se a dona da quinta, se a caseira, sei apenas chamar-se Conceição sempre me oferecia um pirolito devidamente refrescado nas frescas águas da quinta, quando lá ia com o meu pai.
Quinta de Nossa Senhora da Conceição/Outurela
Esta quinta data do século dezoito e foi passando de geração em geração, embora mantendo inalteráveis alguns pormenores originais como a cascata, o tanque, o poço, o casarão e uma linda Capela em Honra de Nossa Senhora da Conceição.
Ainda criança cheguei a conhecer a proprietária Senhora D. Consuelo que, sempre acompanhada da sua criada e dama de companhia Senhora Maria Amélia, ali passava o Verão. A Senhora D. Consuelo pertencia ao Conde de Vimioso.
Quinta e respectiva Casa Branca/Carnaxide
Com origem no século dezanove foi habitada pelo grande poeta Tomás Ribeiro, homem célebre nos reinados dos reis Dom Pedro V e Dom Luís, que bastante contribuiu para que a Imagem aparecida de Nossa Senhora da Conceição da Rocha regressasse ao seu lugar de aparição de onde havia sido retirada por determinação do rei Dom João VI que entendeu não haver naquele local as necessárias condições para a Sua Veneração.
Também consta que o rei Dom Luís e sua esposa a rainha senhora Dona Maria Pia era das varandas da sua casa que assistiam às solenidades anuais em Honra de Nossa Senhora da Rocha.

Quinta da Graça/Cruz Quebrada
Esta quinta foi bastante desmembrada aquando da construção do Estádio Nacional, campos de treino e espaços circundantes, nos anos quarenta (século vinte).
O laranjal desta quinta era importante o qual debruçado sobre o Rio Jamor chegou a ser cantado por Cesário Verde quando residente em Linda-a-Pastora.
Nos anos quarente vendiam-se ali laranjas ao público a dois escudos e cinquenta centavos o cento. Isto para não dizer que as laranjas eram oferecidas e às vezes havia quem as apanhasse no Rio quando estas se desprendiam das árvores.
Quinta dos Verdes/Linda-a-Pastora
Nesta quinta viveu o poeta Cesário Verde, tendo sido herdada pelo seu sobrinho Eng.º Jorge Verde.
Actualmente está transformada em convento.

Quinta do Rodízio/Linda-a-Velha
Embora se fale desta quinta, desconheço a sua origem, supondo que alguma vez pudesse ter existido em Linda-a-Velha.

Quinta da Mirabela/Linda-a-Pastora
Desconheço pormenores da sua origem sabendo apenas da excelência das suas águas que suponho serem comercializadas
Casal de Barronhos/Linda-a-Velha
Pertenceu a Francisco José Vitorino e a que já fiz, anteriormente, pormenorizadas referências, pelo que me dispenso de voltar ao assunto.
Este espaço constitui actualmente a Nova Carnaxide.

Casal da Ninha/Casal da Ninha Velha/Quinta dos Aciprestes – Linda-a-Velha
Embora já me referisse a esta herdade variadíssimas vezes, não posso deixar de lembrar que a mesma foi herdada pelo rei Dom Diniz, do seu pai e rei Dom Afonso III, tendo sido doada ao seu fiel servidor Pero Coelho, chegando a ser residência de Diogo Lopes Pacheco um dos matadores de Inês de Castro a mando do rei Dom Afonso IV, o qual conseguiu fugir ao suplicio decretado pelo rei Dom Pedro I, fugindo para França disfarçado nas roupas de um mendigo, de onde não mais voltou. Há quem diga que voltou a Portugal, depois de perdoado pelo rei Dom Fernando I, mas suponho não ser verídico.
Também como facto histórico foi nesta herdade que se escondeu Dom António Prior do Crato quando fugido da Batalha de Alcântara, travada contra seu primo Filipe II de Espanha, no dia 25 de Agosto de 1580.
Sabe-se ainda que no ano de 1623 foi a herdade arrendada ao Padre Miguel Pestana, sendo rendeiro Bernardo Luís residente na Ribeira de Algés, cuja renda era paga em Galinhas, porcos, ovelhas e alguns frutos, com a exigência de serem produtos de excelente qualidade.
Na segunda metade do século dezoito foi esta herdade oferecida pelo rei Dom João V ao seu secretário e conde de Santos (Brasil) Dom Alexandre de Gusmão, irmão de Bartolomeu de Gusmão o inventor da passarola que ali mandou construir o Palácio dos Aciprestes, porém, tendo falecido no ano de 1753 não chegou a habitá-lo, acabando por ser vendido pela sua viúva aos Viscondes de Rio Seco que o mantiveram na sua posse até aos finais dos anos cinquenta (século vinte) e por ali passaram e gozaram férias figuras altamente marcantes da nossa história.
Vendido ao Sr. Dr. João da Cunha Gonçalves foi o mesmo demolido e reconstruído mais ou menos na mesma traça, mantendo do anterior e por conseguinte inalteráveis, a Capela dedicada a Nossa Senhora do Rosário, o tanque, o poço, o primitivo casal (moradia), os muretes, variadíssimos bancos historiados, algumas imagens de santos que em pequenos nichos se encontravam espalhados pela quinta, a calçada de pedra negra e o portão principal, aliás bastantes pormenores originais (aqui cabe-me fazer um apelo a quem possuir fotografias do primitivo Palácio, o obséquio de me fornecer uma a qual deve ser enviada para Joaquim Fernandes a/c do Lar e Centro de Dia Padre Dehon / Rua dos Lusíadas 4 Linda-a-Velha, o que antecipadamente agradeço, pois que se saiba estas são raras, inclusivamente, nem a Câmara Municipal de Oeiras e Junta de Freguesia de Linda-a-Velha as possuem).
Os últimos habitantes do primitivo Palácio foram o Almirante Policarpo de Azevedo 3º filho do Visconde do Rio Seco e, posteriormente, a senhora Dona Maria José de Azevedo, sua sobrinha, que ali passava o Verão. Na minha juventude brinquei bastante com a filha desta, igualmente criança, cujo nome não me ocorre.
Presentemente, ultrapassadas que foram algumas vicissitudes, este Palácio passou a funcionar como Fundação Marquês de Pombal a qual funciona como dependência da Câmara Municipal de Oeiras.

Embora não se tratando de uma quinta não podemos deixar de referir o magnifico pinhal mandado plantar pelo Sr. Dr. Alfredo de Sousa, o inventor da vacina contra a varíola, casado com a senhora D. Graziela de Sousa, numa propriedade que adquiriu em Linda-a-Velha, na Rua Fontes Pereira de Melo, com o intuito de ali fazer um Sanatório para recuperação de tuberculosos, aproveitando os excelentes ares e não menos excelentes águas deste planalto sobranceiro ao Tejo, o que não aconteceu, tendo acabado por ali construir a sua residência, Vivenda Lys de que veio a desgostar-se sendo a mesma alugada, ou talvez vendida o que desconheço, ao Sr. Eng.º José de Almeida Araújo, titular descendente dos Condes Almeida Araújo de Queluz, sobrinho do grande actor português Alves da Cunha, mestre de Teatro do Conservatório Nacional.
Mais tarde residiu ali a grande obreira e benemérita desta terra Isa Marinho Goulão que veio para aquela casa rodeada de pinheiros na esperança de salvar o seu filho José Joaquim Marinho Goulão que havia contraído a tuberculose, o que não aconteceu tendo acabado por falecer no dia 21 de Dezembro de 1948.
Anos depois o proprietário decidiu vender-lhe aquela residência, tipo palácio e a enorme área que a envolvia, suponho que pela importância de cem mil escudos, o que não foi aceite, acabando por mudar-se para outro local de Linda-a-Velha e mais tarde regressado ao Brasil de onde eram naturais.
Finalizo informando que embora não se possa determinar a origem da região de Linda-a-Velha sabe-se que a mesma foi habitada desde tempos pré-históricos, documentando-o o facto de aqui terem sido encontrados alguns pedaços de cerâmica e fragmentos de lâminas de sílex precisamente no local onde existiu o Moinho de Santa Catarina e uma forca que se julga nunca ter chegado a funcionar, espaço agora ocupado pelo Solplay Hotel, peças que se encontram no Museu de Arqueologia em Belém junto ao Mosteiro dos Jerónimos. Estes achados remontam aos últimos anos do século quarto, início do século quinto antes de Cristo, segundo identificaram entendidos nesta matéria. Nos nossos dias, mais concretamente no ano de 1920 foi encontrado um túmulo romano que estava na zona onde hoje se situa a Rua D. Joana da Glória Pedroso Simões Alves, antiga quinta do Sr. Manuel Leiteiro, o qual se encontra no Museu do Carmo.
Com isto se prova que Linda-a-Velha tem história e até pré-história, tem um passado que convém ser conhecido e respeitado.

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