Monthly Archives: Agosto 2014

ANJO CUSTÓDIO DE PORTUGAL

ANJO DE PORTUGAL

Joaquim Fernandes in Linda-a-Velha, 2014 Agosto/14

Há tempos li uma notícia num jornal regional cujo motivo chamava a atenção para a devoção devida ao Anjo de Portugal.

De facto este nosso País, à semelhança dos demais, tem o seu Anjo protector que, segundo o calendário litúrgico é celebrado no dia 10 de Junho.
Na minha meninice neste dia 10 de Junho celebrava-se Camões – Luís Vaz de Camões, esse vulto único na Europa e talvez no Mundo, cuja data de nascimento se desconhece mas sabe-se ter morrido no dia 10 de Junho de 1580, precisamente no ano em que Portugal perdeu a sua independência ao ser desbaratado e vencido o grande português Dom António Prior do Crato legitimo herdeiro do trono de Portugal, naquela trágica Batalha de Alcântara, travada no dia 25 de Agosto de 1580, ficando este nosso País sob o domínio dos espanhóis durante sessenta anos. Camões, independentemente da miséria em que viveu a sua velhice e de outros males do corpo e da alma que o afligiram e teve de suportar, morreu, por certo envergonhado do País onde nasceu e tão bem soube cantar, não conseguiu ultrapassar os problemas em que foi envolvido, tendo acabado por perder a sua independência a favor de um ganancioso rei espanhol, só porque tinha sangue português por parte de sua mãe, no que beneficiou da colaboração de alguns portugueses poucos escrupulosos que vendendo-se o ajudaram nesta vergonhosa acção.
Mais tarde, aproveitando este dia, passou a festejar-se Portugal e, posteriormente, das Comunidades Portuguesas, festejando-se, por conseguinte, em 10 de Junho Portugal, Camões e as Comunidades Portuguesas, escolhendo-se este dia para homenagear e honrar alguns elementos valorosos, todavia não tantos quantos deviam. Porém esqueceu-se a nível estatal o Anjo de Portugal que neste dia também se celebra, não obstante a Igreja orgulhosamente o fazer.
A celebração do Anjo de Portugal teve a sua origem no reinado de Dom Manuel I – o Venturoso, instituído pelo Papa Júlio II, no ano de 1504, sendo inserido no Calendário Litúrgico pelo Papa Pio XII no ano de 1952 e a sua devoção assumiu contornos de grande Fé aquando da Aparição em Fátima em 1917 da Santíssima Virgem aos pastorinhos Jacinta, Francisco e Lúcia, estando os dois primeiros já beatificados e das consequentes aparições do Anjo de Portugal aos mesmos pastorinhos preparando-os para esta visita da Mãe do Céu.
Se quem governa Portugal atentasse mais nesta devoção, honrando o seu Anjo Protector, talvez estivesse mais protegido de muitos dos problemas que tanto nos afligem e para que se não vê solução nem a curto nem a longo prazo, como o desemprego, o abandono dos idosos, a protecção na saúde, a mendicidade, a fome, o amparo na infância, enfim a falta de caridade para com a maioria do seu povo, esquecendo-se que este Anjo tem como missão Divina governar, reger, guardar e iluminar-nos aos Olhos de Deus e Portugal bem precisa de ser iluminado.
Sendo Portugal um País maioritariamente católico e temente a Deus, desde longínquos anos, diremos, desde sempre, bastando observar a nossa História a partir do nosso primeiro rei Dom Afonso Henriques, o Conquistador, por que razão agora se verifica esta ridícula mentalidade e afastamento entre o Estado e a Igreja, quando, afinal, nas grandes solenidades por ela promovidas, o Governo sempre marca presença ao mais alto nível.
Portugal nasceu do nada, com a graça de Deus e a coragem e bravura dos Homens, cresceu, fez-se grande entre os maiores e agora, com o avançar dos séculos, está reduzido a este rectangulozinho recortado com Ilhas ao fundo, lá longe, distantes, pelo que em vez de progredir se deixa regredir e muitas vezes humilhar e subordinar, pelo que não deviam dispensar a Protecção do nosso Anjo.
Termino, esperançado que, num futuro próximo, passará a celebrar-se, oficialmente, no dia 10 de Junho – Portugal, Camões, Comunidades Portuguesas e o Anjo Protector.

 

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IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA EM PORTUGAL

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Joaquim Fernandes in Linda-a-Velha, 2014 Agosto/13

Em 31 de Janeiro de 1891 rebentou na cidade do Porto uma revolução tendente à implantação da República a qual foi sufocada, tendo sido presos os seus organizadores. A ideia, porém, estava lançada e no dia 1 de Fevereiro de 1908, quando a família real regressava do Alentejo, foram mortos a tiro, no Terreiro do Paço (Praça do Comércio) o rei Dom Carlos e o príncipe real (futuro rei) o infante Dom Luís Filipe, assumindo o poder o príncipe Dom Manuel, um jovem de dezoito anos, sem a necessária preparação para o efeito.

Entretanto, as lutas políticas dos partidos monárquicos deram origem ao desenvolvimento de partidos republicanos o que fez eclodir um movimento revolucionário que implantou a República em Portugal, no dia 5 de Outubro de 1910, pondo assim termo à Monarquia (em Loures a República foi implantada na véspera).
Implantada a República a família real saiu de Portugal, tendo procurado asilo em Inglaterra onde foi acolhida por seu primo Jorge V, que colocou à sua disposição um palácio de vinte divisões, alguns hectares de terreno ajardinado e de caça e criados suficientes para os servir, tendo embarcado na Ericeira a bordo do paquete Amélia. Passado algum tempo o rei D. Manuel II casou com uma princesa alemã, não muito bonita e um tanto estrábica, neta da nossa princesa senhora Dona Antónia, a quem ofereceu como prenda de casamento um diadema de platina cravejado com dois mil e quinhentos diamantes, que o deixou um tanto endividado e que, suponho, faz parte do Tesouro de Portugal.
O rei Dom Manuel II morreu sem deixar descendentes no dia 2 de Julho de 1932, às 13:40 horas, com um edema pulmonar, tendo sido sepultado no Panteão real da Dinastia de Bragança, no Mosteiro de São Vicente em Lisboa, sendo a morte provocada pelo muito que fumava. A partir daí, embora não havendo rei em Portugal, a representação da coroa foi entregue, em minha opinião, indevidamente, à descendência do rei Dom Miguel que havia sido exilado fora de Portugal e sem permissão de usar o nome de Bragança.
Triunfante a revolução chefiada por Machado de Castro foi constituído um governo provisório sob a presidência do Dr. Teófilo Braga que logo publicou as Leis de Registo Civil, do Divórcio, da Família, da Separação da Igreja do Estado, do Inquilinato e do Trabalho entre outras.
Tendo-se procedido à eleição da Assembleia Constituinte para a elaboração e aprovação da Constituição da República que foi aprovada em 18 de Agosto de 1911, foi eleito como Presidente da República o Dr. Manuel de Arriaga.
Em 28 de Maio de 1926 as lutas dos partidos eram uma constante e a indisciplina imperava em todos os serviços administrativos do Estado e no próprio governo, pelo que tal situação não podia continuar sem grave perigo para a Nação e por isso, o Exército tendo à frente o General Gomes da Costa, encerrou o Parlamento e impôs uma ditadura militar em 28 de Maio de 1926.
Cumprida a sua missão a ditadura militar fez aprovar em plebiscito no ano de 1933 uma nova Constituição e eleger a Assembleia Nacional, terminando assim as suas funções, as quais passaram a ser desempenhadas pelo Presidente da República Marechal Óscar de Fragoso Carmona que, em 5 de Julho de 1932 havia nomeado como Chefe do Governo o Prof. Doutor António de Oliveira Salazar. Com a morte do Marechal Carmona, nos anos cinquenta, assumiram o cargo de Presidente da República o General Craveiro Lopes e, posteriormente, o Almirante Américo Tomás.
Quanto à chefia do Governo este foi feito, sucessivamente, pelo Prof. Doutor António de Oliveira Salazar, tendo mais tarde sido substituído pelo Prof. Doutor Marcelo Caetano, dado os graves problemas de saúde por aquele sofridos, tendo-se mantido no lugar depois da sua morte.
Este regime ditaturial e corporativo terminou as suas funções em Portugal, na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, graças à corajosa acção desenvolvida e levada a cabo pelos Capitães de Abril, embora os ideais então manifestados tenham vindo a ser, abruptamente, adulterados, no decurso dos quarenta anos passados desde aquela gloriosa data.

 

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MEMÓRIA DE LINDA-A-VELHA SOBRE O MERCADO MUNICIPAL

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Joaquim Fernandes in 2014/08/01
Estávamos na década de sessenta (século XX) quando chegou à Freguesia de Carnaxide para assumir as funções de Prior, vindo da Igreja de São Pedro no Barreiro, o senhor Padre Francisco Santos Costa, dado a nível religioso ter sido criada a Freguesia de Algés, agregando esta as localidades de Miraflores e Cruz Quebrada/Dafundo, repito, esta alteração foi somente a nível religioso, pois a nível oficial só aconteceu mais tarde, concretamente, nos anos noventa. Assim, Linda-a-Velha continuou integrada em Carnaxide.

Foi precisamente na década de sessenta que alguns vendedores entenderam, por iniciativa própria, estabilizar-se no adro do coreto para fazerem as suas vendas de legumes, peixe, galináceos, roupas, linhas, flores, etc., transformando aquele espaço nobre numa praça de levante, embora os vendedores ambulantes, designadamente, a Zulmira e o José Fazendas peixeiros e a Ludovina com legumes mantivessem os seus clientes habituais.
Linda-a-Velha começou a crescer a partir dos anos cinquenta, as vendas foram aumentando sucessivamente e os vendedores aumentando em conformidade pelo que os peixeiros resolveram mudar de sítio passando, por sua iniciativa para o adro da Capela de Nossa Senhora do Cabo e como as vendas decorriam todos os dias da semana era normal à hora da Missa Dominical as peixeiras apregoarem estridentemente os peixes que tinham para venda o que bastante incomodava e contrariava o nosso Prior dado tal situação prejudicar o ambiente em que, normalmente, decorria a Santa Missa. Depois, havendo, na época, bastantes animais vadios as ditas vendas sugeriam que os gatos e cães frequentassem o local e muitas vezes, na hora da Santa Missa entrassem Capela adentro aborrecendo os assistentes e destabilizando as crianças e quanto ao Prior nem se fala pois os animais subiam até ao altar e por ali andavam à sua volta.
Tentando pôr cobro a esta desagradável situação e também para evitar que as crianças antes e depois da Catequese andassem a correr de adro em adro atravessando a estrada agora com muito mais movimento pois Linda-a-Velha estava a aumentar a olhos vistos, o perigo de atropelamento era uma constante.
Assim, tentando pôr cobro a toda esta situação e ainda porque as peixeiras ao amanharem o peixe deixavam pelo chão as partes inúteis e as águas utilizadas para a sua lavagem, as moscas abundavam naquele local, transformando-o numa perfeita porcaria, quando o Prior as chamava à atenção estas usando uma linguagem desabrida ainda o ofendiam quando afinal estavam usurpando uma área que não lhes pertencia. Assim, resolveu mandar construir o muro que separa aquele adro da Capela da estrada, comunicando à Câmara Municipal de Oeiras a posição assumida e a razão porque o fez e aquela Edilidade ordenou por ofício assinado pelo vereador Senhor Engª Paixão, que o muro fosse demolido num curto espaço de quarenta e oito horas, tendo aquele adro de voltar à situação inicial, dizendo então o dito vereador que o adro era frequentemente utilizado pelos velhinhos que ali iam apanhar Sol e estando o adro fechado isso os impedia, o que até aí nunca se tinha verificado, visto os ditos velhinhos utilizarem mais as tabernas e o velho pontão do que o adro da Capela.
Sendo o Senhor Padre Francisco Santos Costa um homem bastante decidido, que não gostava de ser contrariado nas posições que, ponderadamente, assumia passou pela minha casa, onde aliás ia frequentemente pois bastante gostava dos petiscos que ali lhe eram servidos e, em conjunto, preparámos a resposta ao dito ofício e foi tal a resposta que o muro lá está há mais de cinquenta anos.
Neste entretanto, usando o campo antes utilizado pelo Sporting Clube de Linda-a-Velha para os seus jogos de futebol e os festeiros para a realização das cavalhadas à antiga portuguesa aquando das festas anuais em Honra da Padroeira Nossa Senhora do Cabo, a Câmara Municipal de Oeiras mandou ali construir o Mercado Municipal que depois de construído esteve vários meses para ser inaugurado e, consequentemente utilizado, acabando por ser aberto ao público sem qualquer cerimónia inaugural. Era um bom mercado, com bastantes vendedores e bem abastecido, porém Linda-a-Velha foi crescendo a todos os níveis e com isso vieram alguns supermercados e o mercado municipal foi morrendo aos poucos estando, de momento, reduzido a duas vendedouras de peixe, uma de legumes, outra de galináceos, havendo ainda uma florista e duas senhoras que por vezes vendem roupa e sapatos respectivamente.
Posto o assunto à consideração do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Oeiras para que à semelhança do Mercado Municipal de Algés, inaugurado no ano de 1951, fosse como esse restaurado e dinamizado, tendo o mesmo mandado informar do desinteresse do referido mercado, dado ser a Vila de Linda-a-Velha a que, no Concelho, está mais bem servida de supermercados, tendo, na circunstância, ficado com a ideia que aquele espaço não iria ser destruído mas transformado numa qualquer dependência camarária a favor desta Vila. Quem sabe se é desta vez que Linda-a-Velha vai passar a usufruir de uma Sala de Convívio para que os velhinhos se possam reunir e distrair e uma creche que possa acolher as crianças necessitadas desta terra, permitindo, deste modo, que os progenitores possam, descansadamente, deixar os seus filhos enquanto exercem as suas funções profissionais se, face à crise que estamos enfrentando, ainda tiverem a felicidade de manter emprego.
Sabemos que o País está inacreditavelmente em crise mas como as instalações estão feitas e as respectivas modificações e adaptações certamente não serão muito onerosas, como a sua própria manutenção, entendo, aliás julgo que todos entendem, que a dita crise não pode ser desculpa para tudo e para nada, evitando assim que as ditas instalações acabem por cair de podres.
Deixo este assunto à consideração de quem de direito na esperança de que seja aceite e concretizado em conformidade.

2014/08/01
Joaquim Fernandes

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ALGUNS PORMENORES SOBRE A VIDA DA RAINHA ISABEL DE PORTUGAL

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Joaquim Fernandes in  2014 Julho/10
Seguindo os textos históricos que tenho vindo a apresentar foi-me pedido para escrever alguns pormenores sobre Isabel de Portugal, a nossa Rainha Santa que, embora aragonesa honrou e serviu Portugal e enriqueceu pela sua bondade os altares do mundo inteiro. Assim, atendendo ao solicitado tenho o grato prazer de contar alguns pormenores que julgo de interesse salientar.

A mui nobre, virtuosa e esclarecida senhora Dona Isabel de Aragão era filha de Dom Pedro III e de sua mulher Dona Constança.
Nascida em Zaragoza, a formosa infanta de Aragão teve vários pretendentes dos quais se destacam os príncipes herdeiros de França e Inglaterra mas deu a preferência ao nobre rei de Portugal e Algarve senhor Dom Diniz e por sua vez o jovem rei também não hesitou, pois Isabel era meiga, gentil, talentosa e a aliança entre si e o rei aragonês bastante o favorecia.
Assim, enviados a Aragão os seus embaixadores foram estabelecidas as linhas gerais do consórcio a 24 de Abril do ano de 1281 e assinados os diplomas régios, tendo-se realizado cerca de nove meses depois em Barcelona os assentos nupciais e Isabel atravessou a fronteira de Portugal acompanhada de um luzidíssimo séquito, sendo recebida em Bragança pelo infante Dom Afonso, irmão do rei Dom Diniz que ficou encantado com a sua beleza.
Depois de longa cavalgada chegou a Trancoso onde era aguardada pelo rei Dom Diniz e toda a corte para receberem a rainha e após este cerimonial dirigiram-se todos para o Paço onde se realizou o solene beija-mão a que se seguiram as Bênçãos nupciais acompanhadas ao toque de sinos, várias danças e um excelente banquete e a união foi consumada.
Este o começo de vida de Isabel de aragão como Rainha de Portugal aliás uma vida cheia de percalços, tristezas e desilusões.
Cinco anos passados depois do casamento ainda a coroa não tinha herdeiro e os físicos da corte já falavam da esterilidade da rainha e aconselharam a que seria conveniente uma mudança de ares e de águas e a corte foi transferida para a beira do Mondego em Coimbra.
Apesar da mudança, os tempos passaram e não se verificou qualquer efeito, pelo que o rei andava desesperadíssimo com a situação, sendo entretanto aconselhado a procurar uma qualquer manceba longe de Coimbra que pudesse dar-lhe um filho e dois nomes lhe foram propostos, Aldonça Rodrigues da nobre casa dos Telhas, mulher bastante ambiciosa e interesseira e Grácia Fróes, ambas da Ribeira de Santarém.
Escolhida Aldonça Rodrigues foi assim o assunto tratado no mais completo sigilo para que não chegasse aos ouvidos da rainha e nasceu o bastardo Afonso Sanches no ano de 1288, situação que logo chegou ao conhecimento da rainha, a qual, desgostosa, adoeceu gravemente, pensando que tudo isto acontecia pelos seus pecados.
No ano de 1290 Dona Isabel deu à luz a infanta Dona Constança, porém Dom Diniz encantado pelos afagos do bastardo Afonso Sanches recebeu, friamente, a notícia do nascimento desta filha e, instigado pela intrigas de Aldonça Rodrigues, que com este nascimento via fugir-lhe a coroa ao seu filho, inventou as mais diversas histórias e mentiras em desfavor da rainha o que trazia o rei bastante pensativo, porém, no ano de 1291, em 8 de Fevereiro, nasceu nos velhos Paços de Coimbra o legítimo sucessor da coroa de Portugal e Aldonça Rodrigues ficou roída de inveja e redobrou nas intrigas e falsidades contra a rainha e numa das sua intrigas afiançou que este novo rebento da rainha não era filho do rei mas do seu pajem Ramiro Sanches que a acompanhou desde Espanha e ainda pertencia à nobreza, havendo entre ambos uma confiança fora do normal e a mentira depressa se espalhou.
Neste entretanto, um outro filho bastardo de Dom Diniz e Graça Fróes nasceu, sendo-lhe atribuído o nome de Pedro que, mais tarde, se colocou ao lado da rainha Dona Isabel, sendo um aliado de grande valor, tendo herdado do seu pai o gosto pelas letras.
Acreditando na mentira de Aldonça Rodrigues sobre a infidelidade da rainha resolveu castigar duramente este pajem e numa grande fúria de desespero ordenou ao forneiro de Coimbra que cozia o pão para abastecimento da cidade que mantivesse o forno bem quente ao rubro, com a indicação que aquele que o for procurar e lhe perguntar se cumpridas foram as ordens de el-rei o meter, de imediato, dentro do forno, situação que apesar do sigilo em que o assunto decorreu foi do conhecimento de Aldonça Rodrigues que ficou satisfeitíssima!
Entretanto, o rei chamou o pajem a quem ordenou o fatal recado. Acontece que o referido pajem era um moço honesto e extremamente religioso, senão que fanático pelo que Aldonça Rodrigues escolheu mal, na sua mentira, o amante para a rainha.
Seguindo as instruções do rei o forno estava aquecido ao rubro mas o tempo ia decorrendo sem que o condenado aparecesse e Dom Diniz esperava, ansiosamente, pelos resultados da sua ordem sentencial, porém o pajem Ramiro Sanches muito antes de abeirar-se do desconhecido local do suplício entrou num Santuário onde os sinos apelavam chamando à Santa Missa e ingressou avidamente no templo onde era rezado um trintário que estava a começar. Trinta padres sufragavam a alma de um homem rico que se havia finado e o pajem ouviu dez das missas e tão embevecido estava com as coisas do Céu que tarde se lembrou das ordens do rei para o forneiro e, independentemente disso ainda passou por outro templo onde os sinos apelavam à oração.
Neste entretanto, o servidor do rei e cúmplice de Aldonça Rodrigues que nada sabia do que se tratava, a pedido daquela procurou o forneiro para lhe perguntar se as ordens do rei foram cumpridas efectivamente e o forneiro homem alto e abrutalhado julgando ser o tal pajem por quem esperava sorrindo disse-lhe: “ sim cumpri, vem ver” e este abeirando-se do forno o forneiro pegou-lhe pelas pernas e lançando-o lá dentro fechou de imediato a porta enquanto o seu corpo era reduzido a pó e pensou: “ que delito teria feito este pajem para que o rei assim o castigasse”. Nesta altura chegou ao forno o pajem Ramiro Sanches que lhe perguntou se cumpridas foram as ordens de el-rei e o forneiro respondeu-lhe:-“ cumpridíssimas senhor pajem e estas horas já o miserável está reduzido a pó” e o pobre do pajem encolheu os ombros agradeceu a informação e regressou ao Paço, informando o rei em conformidade, isto perante a perplexidade e admiração do rei que ficou sem palavras. Refeito da situação procurou saber do pajem tudo o que se havia passado e este contou, escrupulosamente, o que sucedeu e o rei ao despedir-se dele só exclamou: – “Meu Deus, meu Deus!” e o caso ficou por aqui.
Durante a sua vida exemplar a nossa Rainha sempre procurou evitar as guerras entre o marido e o seu filho legítimo originadas pela cobiça do seu filho bastardo que via fugir-lhe o tão ambicionado trono.
Conta-se ainda que quando exilada em Alenquer por determinação do rei, a rainha mandou ali construir uma Capela, ainda existente, em Louvor do Divino Espírito Santo e acontece que numa das alturas em que pretendia pagar aos obreiros não tinha dinheiro para fazê-lo e então, ofereceu a cada um deles, uma das rosas de um grande ramo que um jovem lhe havia oferecido momentos antes e estes pelo respeito eu tinham para com a rainha não contestaram e com espanto verificaram, no dia seguinte, que no local onde puseram a rosa a mesma havia sido substituída por uma moeda de ouro. Esta linda e histórica Capela há anos que está sendo cuidada pela minha velha amiga Maria Amélia Marques que, apesar dos seus 84 anos continua a fazê-lo com todo o carinho, tendo a sua festa maior em cada dia de Pentecostes, este ano foi a mesma presidida por Sua Excelência Reverendíssima o Patriarca de Lisboa Senhor Dom Manuel Clemente, segundo aquela me informou.
Ainda outro pormenor, embora que lendário, a nossa rainha aquando da construção do Convento de Santa Clara em Coimbra sob a sua responsabilidade, lembrou-se de ir pagar aos obreiros pelas suas próprias mãos os seus salários, levando no regaço o dinheiro necessário e, inesperadamente, viu o rei que lhe perguntou o que levava no regaço. Isabel querendo encobrir o que levava de facto respondeu: – “ Rosas são senhor meu” e o rei estranhando retorquiu: – “ Rosas no Inverno!? Deixai-me vê-las Isabel.” A rainha ficou perplexa mas não teve outro remédio senão fazer o que lhe era ordenado e ao fazê-lo em vez de dinheiro caiu um bom punhado de rosas de inebriante odor, perante a admiração do rei.
Muito mais havia a contar sobre esta rainha mas concluímos que depois da morte do rei no ano de 1325 sepultado no Convento de Odivelas que ele mandou construir, a rainha Isabel decidiu vestir o hábito da Ordem de Santa Clara mais por tristeza que por vocação, até porque tinha muita idade e se encontrava doente, mas mesmo assim nos últimos anos da sua vida ainda teve de suportar muitos trabalhos e dissabores pelas revoltas travadas entre o seu filho rei Dom Afonso IV e o irmão o bastardo Afonso Sanches e também pela sua neta Dona Maria maltratada pelo marido Afonso 11º de Castela provocados pelos seus amores por outra mulher a Leonor de Gusmão e a guerra travada pelo seu filho e o próprio sogro rei de Castela. Perante todos estes dissabores e a sua própria doença acabou por cair, gravemente, em Estremoz onde exalou o último suspiro na noite de 4 de Julho de 1336, sendo sepultada no seu Convento de Santa Clara em Coimbra onde esteve cerca de 500 anos sendo os seus restos mortais transladados para o novo Convento da mesma Ordem salvo erro durante o reinado do nosso rei Dom Pedro II, encontrando-se num túmulo de prata colocado sobre o altar-mor. Isto dado o velho Convento ter sido em parte afundado pelas águas do Mondego.
Poucos anos após a sua morte, suponho que nove, foi esta Rainha canonizada e elevada à Glória dos altares, sendo venerada no mundo inteiro como Isabel de Portugal.
Finalizo este historial dando a conhecer que tive o privilégio de ter em minhas mãos e beijado o lençol de linho onde o seu corpo foi tumulado o qual agora se encontra em redoma de vidro, no Museu do referido convento. Quanto ao seu anterior túmulo, encontra-se no velho Convento de Santa Clara e embora vazio, é local de veneração.

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