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HISTORIAL SOBRE ANTÓNIO PRIOR DO CRATO

D._Ant_nio

Joaquim Fernandes in Linda-a-Velha, 2014 Junho/ 17

Sendo António Prior do Crato uma figura histórica que muito considero e aprecio que merece ser lembrado pelo seu patriotismo, humildade e valor moral entendi preparar este historial sobre a sua vida.

Violante Gomes era a filha mais velha de Pero Gomes, residente em Moncorvo, descendente de judeus mas integrado numa família de cristãos novos.
Era uma jovem de dezoito anos cujos dotes físicos eram notados pela sua invulgar beleza. Era alta de fortes tranças negras e sedosas, olhos verdes e seios salientes e arfantes, vestindo, normalmente, roupas brancas e vaporosas, sendo muitas as propostas de casamento que recusou, pois o seu sonho era encontrar o príncipe encantado com que frequentemente sonhava.
Sua Alteza Real o príncipe Dom Luís Duque de Beja, filho do Rei Dom Manuel, o Venturoso e de sua segunda mulher a rainha Dona Maria, com vinte e três anos de idade, sendo excelente cavaleiro, amante pela caça e poesia e ao longo da sua curta idade recusou casamento com variadíssimas e ricas princesas entre estas Maria Túdor rainha de Inglaterra e Edwiges que foi rainha da Polónia.
Um dia andando numa caçada na zona de Moncorvo decidiu descansar, farto como andava de albergarias e pousadas, procurou fazê-lo no castelo de Mendo Curvo que, muito embora fossem cinco horas da manhã de um Domingo, o recebeu, bem como aos seus companheiros, com todas as honrarias, disponibilizando, de imediato, aposentos para todos e, inclusivamente para os cavalos.
Envergando outras roupas que não as de caça assistiu à Santa Missa na Basílica do burgo. Entretanto, sabendo-se da presença do jovem príncipe, ranchos de raparigas caminharam para o Templo para vê-lo e foi aqui que a jovem Violante Gomes foi vista pelo príncipe que por ela logo se apaixonou. Por sua vez a jovem Violante também sentiu no seu coração algumas palpitações mas afastou-se rapidamente das vistas perscrutadoras do infante embora este jamais a esquecesse e desejava a todo o momento encontrar-se com ela para revelar-lhe a sua paixão.
Procurando-a na sua residência falou-lhe do seu amor e logo assentaram o casamento que em nada agradou à família real mas, apesar disso, o mesmo foi mesmo realizado numa pequena Ermida do burgo e de noite para que o enlace se mantivesse em segredo.
Uma vez casados a residir no paço em casa própria a jovem Duquesa de Beja era mantida com todas as grandezas embora os seus inimigos a apelidassem de borregã do príncipe Dom Luís.
Passados alguns meses nasceu o príncipe Dom António que se desenvolveu a olhos vistos, tornando-se um príncipe muito culto, tendo passado por Coimbra onde se doutorou em artes, assumindo mais tarde o cargo de Grão Prior do Crato. Porém, o Cardeal Dom Henrique seu tio inimizou-se com ele visto pretender que este recebesse votos sacerdotais o que sempre recusou.
Anos passaram e Violante Gomes cansada das intrigas em seu desabono combinou com o marido encerrar-se no Convento de Almoster, onde mais tarde acabou por professar, sendo frequentemente visitada pelo seu filho António.
No ano de 1555 faleceu Dom Luís deixando inconsolável no Mosteiro a sua mulher que lhe sobreviveu ainda por um espaço de catorze anos.
Tendo morrido o Rei Dom João III no ano de 1557, cujo filho havia morrido antes numa queda de cavalo assumiu a regência do reino sua mulher a rainha Dona Catarina, visto o neto Dom Sebastião ser ainda uma criança e durante a sua regência foi bastante apoiada pelo seu sobrinho Dom António que muitas vezes contrariou as ideias manifestadas pelo Cardeal Dom Henrique que detestava este sobrinho.
Entretanto Dom Sebastião assumiu a coroa de Portugal com catorze anos no ano de 1568. Muito jovem, inexperiente, com gostos um tanto fora do vulgar, muitas vezes mal aconselhado por elementos de que se fazia rodear, extremamente ambicioso e com espírito de conquista fez Portugal enfrentar a Batalha de Alcácer Quibir levando consigo a fina flor da juventude portuguesa e devastando todos os bens materiais possíveis e imagináveis mas, infelizmente, nada aconteceu conforme os seus desejos e aspirações e ali perdeu a vida com muitos daqueles que o acompanharam e Portugal caiu, desastrosamente, sobre o capim africano e os que não morreram ficaram como reféns durante longo tempo com o próprio António Prior do Crato.
Como o Rei Dom Sebastião morreu sem deixar herdeiros directos foi aclamado rei o tio Cardeal D. Henrique, um velho caquético e imbecil com setenta anos de idade, no dia 28 de Agosto de 1578 que não soube preparar a sua sucessão. Entretanto Portugal estava paupérrimo de valores humanos e materiais, o que levou Filipe II de Espanha, neto do Rei Dom Manuel por parte da sua filha Dona Isabel, ainda antes da morte do tio, que ansiosamente esperava, começar a preparar a usurpação do trono de Portugal comprando as mentalidades de alguns portugueses pouco patriotas e escrupulosos, capitaneados pelo bandido Cristóvão de Moura.
Morto o Cardeal-Rei no dia 31 de Janeiro de 1580 apresentaram-se como candidatos ao trono Filipe II de Espanha, António Prior do Crato, Catarina Duquesa de Bragança e Manuel Felisberto Duque de Saboia, todos netos do Rei Dom Manuel e ainda Rainúncio príncipe de Parma, filho da Duquesa Catarina, Isabel de Inglaterra e o próprio Papa Gregório 13º visto entender que o ceptro real constituía espólio de um Cardeal e por isso lhe pertencia.
Embora alguns destes candidatos tivessem mais ou menos direitos ao trono de Portugal o povo deu a preferência a Dom António Prior do Crato e aclamou-o Rei, jurando morte aos espanhóis e a todos aqueles que se venderam e Dom António I governou Portugal durante três meses tendo chegado a cunhar moedas e foi ao som de grandes aplausos que entrou no Paço de Lisboa.
Porém, os espanhóis não pararam, antes pelo contrário, e no dia 25 de Agosto de 1580, comandados pelo perverso Duque de Alba encontraram-se em Alcântara com o reduzido exército de Dom António constituído por cerca de quatro mil homens válidos recrutados pelas ruas e conventos não preparados que nada fizeram perante o numeroso exército espanhol devidamente apetrechado e organizado.
A luta travou-se mas Dom António vendo morta e em fuga a maioria da sua gente e ele próprio ferido no rosto caiu por terra abandonando a contenda tendo-se refugiado em Linda-a-Velha no Casal da Ninha (actualmente Palácio dos Aciprestes), enquanto os espanhóis à força bruta lhe arrancaram, violentamente, o lugar que legitimamente lhe pertencia.
Fugiu para Santarém e depois para os Açores e aí foi aclamado Rei em algumas ilhas, posteriormente partiu para França onde faleceu, ficando o seu corpo sepultado no Convento de São Francisco, enquanto Filipe II de Espanha foi aclamado Rei de Portugal como Filipe I, nas Cortes de Tomar em Dezembro de 1580.
Por causa da ganância e perversidade de um rei espanhol, Portugal perdeu um brilhante rei como teria sido Dom António I que nunca se quis vender ao seu primo apesar das muitas propostas que lhe foram feitas, perdendo Portugal a sua independência.
Em Portugal ficaram os filhos de Dom António, entre estes o Príncipe Real Dom João de Portugal que, embora herdando dos pais a honestidade, humildade e excelente carácter, os espanhóis sempre ignoraram.

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CULTO DE NOSSA SENHORA DO AMPARO NA FREGUESIA DE CARNAXIDE

Procissão de N.S.Amparo

Joaquim Fernandes in Linda-a-Velha, 2014 Maio/31
Até aos anos noventa (século XX) Linda-a-Velha estava oficialmente integrada na Freguesia de Carnaxide, considerada a segunda Freguesia do Patriarcado de Lisboa, na época a maior do Concelho de Oeiras.

Serve este preâmbulo para ilustrar o facto de incluir este historial nas memórias de Linda-a-Velha, além de eu próprio pertencer à Freguesia de Carnaxide, onde, a nível religioso bastante trabalhei.
Assim, consta-se a propósito das festividades celebradas em Honra de Nossa Senhora do Amparo, cuja imagem se venera na Igreja de São Romão, antes Paroquial, que as mesmas estão relacionadas com um voto solene feito pelos paroquianos no dia um de Novembro de 1755, dia de Todos os Santos, aquando do grande terramoto que nesse dia aconteceu na cidade de Lisboa, embora os consequentes estragos se verificassem em variadíssimos locais deste País.
Segundo declarações prestadas e escritas pelo Pároco de então Padre Sebastião Rodrigues a Igreja regorgitava de fiéis que assistiam à Santa Missa quando às 09:05 horas da manhã um forte rugido subterrâneo fez tremer todo aquele lindo templo como se fosse uma árvore agitada pelo vento e de repente a abóboda onde se encontrava pintada uma lindíssima Imagem de Nossa Senhora da Conceição rodeada de anjos abriu em toda a sua extensão deixando a descoberto o céu pardacento e ameaçando cair a todo o momento, o que iria engrossar o número de mortos que o dito terramoto provocou, segundo estatísticas da época fixado em cerca de quarenta mil pessoas.
O povo aterrorizado levantou-se de imediato e em altos gritos de pânico e terror gritou em uníssono pela protecçao de Nossa Senhora do Amparo, cuja imagem ainda hoje ali se venera e, em grande fervor, pediu que os protegesse e amparasse naquela hora de aflição.
Um novo abalo se seguiu e a abóboda uniu-se fortemente não se desprendendo como tudo fazia supor embora ficando altamente danificada.
Entretanto, por todo o lado o chão fende-se, caindo por terra milhares de habitações convertendo-se em catacumbas dos seus habitantes e os gritos de horror e de lamento são horripilantes. O mar crescendo e rugindo como um animal raivoso ameaçava a todo o momento invadir a terra, enfim, foi um indiscritível terror, mas no caso dos paroquianos de Carnaxide pela graça de Nossa Senhora do Amparo conseguiu sair ileso do Templo sem que nada de mal lhe acontecesse.
Em sinal de agradecimento e gratidão por não ter perecido debaixo dos escombros da Igreja em que, à semelhança dos outros se tornaram, logo fez um voto solene de transportar aquela milagrosa Imagem aos ombros em procissão a realizar todos os Domingos de Pascoela o que aconteceu logo a partir de 1756 e todo o povo chorava de emoção e agradecimento a Nossa Senhora pelo grande milagre concedido.
O rei D. José conhecedor desta grande graça visitou este Templo acompanhado do seu Ministro Sebastião José de Carvalho e Mello, inteirando-se de toda a situação e logo ali decidiu custear todas as despesas com a sua recuperação, mandando construir na altura o Chafariz que ainda hoje ali se encontra e a cuja inauguração ambos assistiram.
O cumprimento deste voto foi interrompido no ano de 1910, ano em que foi implantada a República Portuguesa e muitas Igrejas foram encerradas e esta não fugiu à regra tendo as suas portas sido trancadas com madeiras pregadas e assim se manteve durante vários anos, até que um grupo de bondosas e determinadas senhoras se resolveram arrancar as madeiras das portas e, uma vez dentro da Igreja, limparam-na cuidadosamente e, enfeitando o andor de Nossa Senhora do Amparo levaram-na em ombros pelas ruas da Freguesia cantando e rezando em seu louvor, embora muito povo receoso fechasse ostensivamente as janelas à sua passagem, situação que se manteve durante anos.
A partir daqui continua a cumprir-se, solenemente, aquele voto que um dia, no momento de dor, aflição e de pânico, foi feito a Nossa Senhora.
Das muitas Graças recebidas consta ainda que, muito antes do terramoto, um homem que transportava lenha num carro puxado por um boi ao atravessar a praia da Cruz-Quebrada, o dito carro foi arrastado pelas ondas. Em grande aflição o pobre homem invocou a protecção de Nossa Senhora do Amparo e as ondas devolveram o carro seguindo o homem o seu caminho são e salvo.
É uma pena que esta linda Igreja de tantas tradições e memórias não seja devidamente restaurada, embora pense que isso chegou a ser prometido pela Câmara Municipal de Oeiras e a abóboda agora pintada a branco não volte a ostentar aquela linda Imagem de Nossa Senhora da Conceição rodeada de Anjos.
Nesta Igreja se baptizaram e casaram muitos dos meus familiares, designadamente os meus avós maternos Teresa e Daniel no ano de 1899, os meus pais no dia 6 de Agosto de l933 e eu próprio ali fiz a minha comunhão solene de profissão de Fé e recebi o Sacramento do Crisma no dia 31 de Maio de 1945. Estes entre muitas outras memórias que me são muito gratas recordar.

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