Monthly Archives: Abril 2014

PERCURSO DE VIDA

 

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Joaquim Fernandes in Linda-a-Velha, 2014 Fevereiro / 15

Olhei pela vidraça, era o entardecer de um dia outonal, lá fora o vento soprava e a chuva caía, impiedosamente, sobre a terra molhada.
Embalado pela chuva eu ali estava revivendo o passado, um passado sem idade que sempre gosto de recordar num espírito de ilusão e de ternura e assim me vi brincando com os meus barcos de papel que velozmente navegavam ao sabor da corrente pelas valetas de águas límpidas que corriam entre as suas margens de terra batida. Vertiginosamente, bem ao encontro do fim e um após outro, numa sequência feliz, desaguavam, rodopiando, numa enorme sarjeta cujas águas eram levadas para o infinito. Pouco mais teria de sete anos de idade.
Era uma criança tímida, muito tímida, que nada sabia da vida. Era uma criança normal do meu tempo, um tempo em que as crianças eram mesmo crianças.
Vestido a propósito e a cabeça descoberta como aliás sempre gostei e ainda gosto, dava largas à minha brincadeira preferida de correr atrás dos barcos de papel que eu próprio construía. Tudo que era papel normalmente redundava em barco. Na altura até diziam que eu havia de ser um homem do mar, tal era a minha dedicação pelos barcos, pelas águas, pelo mar, pelo enrolar das ondas, que se desfaziam uma após outra numa sequência constante.
Ao toque estridente da sirene da escola eu lá ia sentar-me na velha carteira, deixando para trás toda a brincadeira., para aprender a ler, a escrever e a contar. As contas, que azar eu tinha às contas que quase sempre errava. Em contrapartida, era óptimo nas letras. Fazia redacções brilhantes, era o meu forte e a minha defesa. No desenho também não era nada mau e na história nem se fala, sabia de cor e salteado a vida dos reis e homens célebres, os motivos que os distinguiram , as histórias da História. As histórias que eu inventava quase todas, fruto da vida que imaginariamente eu gostaria de viver.
Tudo o que via e ouvia com interesse reproduzia consoante o meu gosto e imaginação. Depois das aulas de instrução primária, no terraço da minha casa, a casa onde nasci, dava largas à minha fértil imaginação e transformava em brincadeiras tudo o que, normalmente, se passava na escola. Assim, reproduzia todas as conversas, formulava perguntas e dava as respostas, fazendo alterações de voz consoante os casos e brincando recapitulava toda a matéria de ensino. Foi ali, no terraço da minha casa que, impensadamente, criei gosto pela arte de representar onde mais tarde viria a profissionalizar-me.
Às vezes, muitas vezes, estava tão envolvido naquelas brincadeiras que nem me apercebia das pessoas à minha volta, pessoas que seriam os meus familiares pois sempre brincava só. Este foi o primeiro palco da minha vida.
Feita a instrução primária veio a Escola Industrial pois a família entendia, sem ninguém me consultar, que o “menino” tinha de ser engenheiro.
Inesperadamente, sem vontade própria, aí vou eu para uma Escola Industrial, tinha então nove anos. Foi aqui que comecei a viver uma vida diferente, uma nova experiência. Ali as crianças tímidas não tinham lugar e depressa me transformei e adaptei às realidades de circunstância, conheci amigos, tive outras experiências, outras vivências e criei uma nova personalidade, uma nova postura. Era já um rapazito seguro de mim próprio e, fundamentalmente, sabia o que queria e não queria e… engenheiro? Engenheiro não!
Feitos os exames de transição depois de umas férias grandes a estudar ingressei numa Escola Comercial. Era isto de facto que queria. Estava bem comigo próprio.
O curso foi feito, fiz parte do grupo de teatro da escola como primeiro declamador, escrevi para o jornal que a mesma editava e cheguei a ser louvado pelos Directores de outras escolas em relação aos artigos que escrevi. Enfim, era um senhor respeitado.
Feita a equivalência ao sétimo ano liceal (antigo) em vez de entrar na Faculdade para o curso de Direito, seguiu-se a loucura do teatro e larguei tudo para ingressar no Conservatório Nacional e assim se seguiu na minha vida o teatro profissional com o incondicional apoio de uma grande amiga Senhora D. Corina Freire, um grande valor dos palcos portugueses do seu tempo. Foi das piores coisas que me podia ter acontecido perante a minha família que nunca me apoiou e o teatro, a grande paixão da minha vida, esfumou-se volvidos poucos mais de quatro anos de actividade.
Em seguida, enveredei pelo sector administrativo onde conheci grandes amigos e a minha vida não mais foi a mesma. Dediquei-me de alma e coração, contudo, o teatro perdurou para sempre no meu espírito, nos gestos e nas palavras e deixei para trás tantas páginas bonitas da minha vida que adoro reviver. Quanto ao teatro hoje olho os palcos com saudade e fica-me a tristeza no olhar.
Às vezes dói-me a vida ao lembrar tantos factos que gostaria de voltar a viver, ainda que por instantes, daquilo que gostaria de ser ou de ter sido e não sou, porém sou aquilo que Deus determinou e por isso estou grato e lhe dou graças.
Junto à minha janela enquanto a chuva caía impiedosamente e constante, revivi também alguns momentos bem difíceis da minha vida embora Deus me tenha sempre apontado o melhor caminho, nem sempre o mais fácil, mas eu segui sem medo. Se hoje isto ou aquilo está mal, amanhã estará melhor, pois por maior que seja a noite o sol voltará sempre no dia seguinte. Esta é a minha Fé, a minha certeza e a minha Força.
Foi neste espírito que a vida se foi desenvolvendo e os anos passando com alegrias e tristezas em caminhos paralelos. Os meus familiares e aqueles que muito amei foram ficando pelo caminho, deixando-me mais pobre de amor e de afecto. Eu, porém, continuo firme nas minhas ideias e convicções sempre esperando o dia de amanhã e com ele a concretização de alguns sonhos.
Quando dei por mim a chuva havia deixado de cair e o sol havia voltado a brilhar naquele final de tarde outonal. Da rua vinha um cheiro bom a castanhas que alguém assava.
A vida voltou à normalidade, ao seu vai vem constante. Para lá dos anos que vivi ficou a minha juventude que recordei aqui com saudade.

 

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Maria Ninguém

Rua do Alecrim

Joaquim Fernandes in Linda-a-Velha 2014 Março /10

Não posso precisar o ano mas aconteceu na década de sessenta (século XX), trabalhava então no Sindicato dos Empregados de Escritório, situando-se este na Rua do Alecrim nº 46 – 1º em Lisboa.

Como tínhamos duas horas para o almoço e eu almoçava na zona, diariamente, passava pela Igreja dos Mártires no Chiado para visitar o Santíssimo Sacramento e fazer-lhe um pouco de adoração. Durante estas visitas era frequente ver uma velhinha rezando, fervorosamente, junto do altar de Nossa Senhora de Fátima até que num dos dias a velhinha bracejava desesperadamente o que não era habitual às posições de Fé que lhe eram peculiares.

Saímos ao mesmo tempo e ela caminhava com tanta segurança que quando chegámos à rua e ela desarticulou a sua bengala de invisual é que vi que era cega. Dei-lhe o braço que aceitou e perguntei-lhe se tinha almoçado ao que me respondeu que era bastante pobre, vivia numa barraca e só comia quando lhe davam pelo que a convidei a almoçar comigo e encaminhámo-nos para o restaurante que diariamente utilizava a “Velha Gruta” na Rua da Emenda e almoçámos juntos. Então procurei saber alguns pormenores da sua vida.

Assim, quis saber o seu nome que não me disse afirmando ser “ Maria Ninguém”, uma pobre de Cristo que já tinha perdido o nome. De seguida, perguntei-lhe porque gesticulava tanto junto de Nossa Senhora, se estava zangada? Disse-me que não, não se zangava com Nossa Senhora, estava apenas aborrecida consigo própria e ficou por aqui.

Perguntei-lhe se tinha filhos ao que me disse que teve três, o mais velho entrou pelos caminhos da perdição não sabia dele seria bem natural que estivesse preso, o do meio arranjou um filho a uma rapariga menor e fugiu para o Brasil não mais teve notícias e o mais novo cujo nascimento a levou à cegueira era uma jóia mas Deus levou-o ainda jovem e num repente viu-se só no Mundo.

Não sei porquê mas houve uma certa empatia entre nós e como diariamente a via na Igreja com frequência a obsequiava com bolachas, fruta e alguns alimentos. As minhas posses também não eram muitas pois tinha os meus pais sob a minha responsabilidade, mas apesar disso às vezes metia-lhe na mão uma nota de cinquenta ou de vinte escudos que ela tocava e logo, mesmo sem ver, dizia o seu valor e um dia disse-me se podia dar-me um beijo ao que respondi; claro, terei o maior gosto e agradecendo-me atirou-se ao meu pescoço beijou-me e abraçou-me dizendo que pena, que pena não ser meu filho ao que rematei deixe posso ser seu neto do coração. A partir de agora sou seu neto, ela sorriu e apertou-me fortemente a minha mão.

Entretanto, por força de um serviço que criei no Sindicato e que com a graça de Deus cresceu e depressa se fez grande sendo necessário admitir pessoal para me secundar nas minhas actividades próprias do serviço, passei a ter instalações próprias na Avenida Duque de Loulé nº 83 – 3º em Lisboa e foi assim que nasceu o Serviço de Colocações do Sindicato com Gabinete de Psicotécnica incorporado que deu brado na cidade de Lisboa e arredores e que centenas de trabalhadores conseguiram emprego pela actuação deste Serviço.

Foi a partir deste momento que deixei de ver a boa velhinha que um dia Deus pôs no meu caminho.

A minha vida modificou-se completamente quer em aspectos de horários quer de responsabilidades e das poucas vezes que me desloquei à sede do Sindicato e, consequentemente à Igreja dos Mártires, não voltei a ver a boa velhinha a “Maria Ninguém” como ela se apelidou. Será que mudou de sítio, será que morreu? Se morreu estou crente que Deus a recebeu na Sua Glória e hoje na Eternidade por certo se lembrará daquele jovem que um dia a acarinhou e considerou avó de coração. Ainda hoje, nas minhas orações eu não esqueço a “Maria Ninguém”.

 

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