Monthly Archives: Março 2014

FALANDO DE LUÍS VAZ DE CAMÕES

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Joaquim Fernandes Linda-a-Velha, 2014 Março/08

Foi a 10 de Junho de 1580 o dia em que se supõe ter morrido Luís Vaz de Camões, o maior vulto, o expoente máximo da poesia em Portugal, na Europa e talvez no Mundo. Morreu com a Pátria aquele que tão bem a soube cantar. A sua morte está relacionada com a perda de independência a favor dos Espanhóis e tudo porque um decrépito rei, um pobre de espírito embora fosse um homem da Igreja, um Cardeal, com responsabilidades redobradas deixou-se morrer sem acautelar devidamente a sua sucessão ao trono de Portugal a favor de seu sobrinho António Prior do Crato, só porque o considerava filho ilegítimo dado a sua mãe não ser um elemento da nobreza.

A sua preferência sempre apontou para o rei de Espanha Filipe II igualmente seu sobrinho, um homem ganancioso, interesseiro e perverso que sabendo desta preferência desde muito cedo começou a acautelar os seus interesses comprando a mentalidade de alguns portugueses menos escrupulosos através de cédulas, outros valores e garantias.

Morreu o rei sem nada deixar decidido e apesar de António Prior do Crato ter sido aclamado pelo povo como António I de Portugal, a Batalha de Alcântara travada em 25 de Agosto de 1580, pôs termo a esta decisão e, em minha opinião, perdeu-se um grande rei e, simultaneamente, a independência de Portugal, situação que se manteve durante sessenta anos.

Luís Vaz de Camões morreu em local desconhecido, pessoalmente aponto para Alenquer, antes deste trágico acontecimento esquecido de tudo e de todos e na mais completa miséria e o seu corpo largado numa qualquer vala comum, de tal forma ignorado que se lhe perdeu o rasto e jamais se soube onde se encontravam os restos mortais daquele que foi grande entre os maiores, senão único.

Quando se diz que o rei D. Sebastião ouviu, atentamente, no Paço de Sintra a integral leitura de os Lusíadas é completamente falso pois jamais o jovem rei com toda a sua irrequietude, exigência e preferências, estaria interessado e disponível para ouvir atentamente, a leitura integral do livro, como falso foi a pensão vitalícia que se diz ter-lhe atribuído. Camões era um homem que embora culto não passava de um simples desconhecido, sendo empregado inferior de um qualquer nobre e que se saiba também nunca pegou numa espada, apesar de assim ser normalmente apresentado. Nos últimos anos da sua vida mendigava pelas ruas o seu sustento apoiado em duas muletas de madeira e como homem apaixonado sofreu na sua juventude algumas humilhações e desterros, sendo encarregado de trabalhos nada equivalentes ao seu valor intrínseco como aquando do seu desterro em Macau que se ocupava dos assentos dos mortos.

Embora tarde, como é habitual em Portugal foi reconhecido o seu valor, sendo dignificado, homenageado e perpectuada a sua memória através de um riquíssimo túmulo no Mosteiro dos Jerónimos e como símbolo Nacional igualmente mantém túmulo no Panteão Nacional, só que ambos se encontram vazios pois como já disse desconhece-se onde se encontram os seus restos mortais.

Com estas minhas palavras deixo aqui a minha homenagem a este ícone que é Luís Vaz de Camões.

 

 

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ENQUANTO O COMBOIO NÃO CHEGA

Joaquim Fernandes Linda-a-Velha, 2014 Fevereiro/ 19

Um dia, na década de sessenta, mais propriamente no ano de 1967 por segundos perdi, no Cais do Sodré, o comboio das 23:30 horas e então, sentado numa pedra de amarração da velha ribeira, tive oportunidade de ver e admirar a situação que passo a descrever:

“ É noite. À minha frente o mar, esse mar imenso que os nossos antepassados tão bem souberam desvendar, vencendo os terrores que o envolviam, o que os havia de levar bem longe deste pequeníssimo “Jardim da Europa”.

Na quietude das suas águas escurecidas pela noite reflectem-se os barcos parados, em agigantadas sombras produzidas pela luz baça da lua.

Tudo está silencioso e melancólicos o mar, os barcos, a noite e até um gato que acocorado junto das águas aguarda, possivelmente com impaciência, o descuido de algum peixe que, desapercebido da sua presença, procura alimento próximo dele, ou então o cadáver de algum outro, que a tranquilidade das águas não consegue arrastar.

Longe a Imagem de Cristo-Rei envolvida numa serenidade de luz, faz-nos recordar a transfiguração no Monte Tabor ou talvez, a Ascensão. Uma Ascensão de Paz e Amor.

LUGELA (1), Lisboa 1971

Em seu redor, milhares de luzinhas parecem Anjos cantando aleluias em Sua honra ou as graças que aspergiu sobre a Terra durante a Sua Vida exemplar entre os homens.

Passa um barco. Uma enorme cidade flutuante, que corta as águas e as vai acordando docemente. O gato fugiu, talvez amedrontado, e eu, silenciosamente, louvei a Deus pelo seu poder e majestade.

Bem depressa o barco se afastou e, novamente, as águas voltaram a acalmar-se, possivelmente a reconciliar-se com o silêncio da noite que as envolve, encobrindo, simultaneamente, os seus perigos. Faz-nos lembrar uma enorme armadilha que, traiçoeiramente, confia no descuido de algum desprevenido, para o abraçar nas suas garras poderosas.

É quase meia-noite. Está chegado o comboio que nos há-de afastar deste lugar de sonho e meditação. Contudo, no nosso espírito, ficará bem presente o que involuntariamente nos foi dado presenciar.

Amanhã, o Sol voltará a brilhar, espelhando-se nas borbulhentas águas prateadas, os barcos voltarão a movimentar-se nas suas fainas diárias, a Vida recomeçará e o mar, finalmente, acordará.”

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