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HISTORIAL DO CORETO: SE AS PEDRAS FALASSEM…!

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Joaquim Fernandes 13 de Janeiro de 2014

Durante anos, aquando das festividades em Honra da Padroeira Nossa Senhora do Cabo e do Mártir São Sebastião, igualmente muito festejado nesta terra, o Coreto para a exibição das Bandas e Conjuntos Musicais que actuavam era armado em madeira, tipo palanque, em frente da Capela e assim funcionou até ao ano de 1886, data em que o Almirante Policarpo de Azevedo, filho do 3º Visconde de Rio-Seco proprietário e residente no Palácio dos Aciprestes, generosamente ofereceu um pedaço de terra junto da Capela para ali ser construído um coreto de raiz que ficasse para a posteridade evitando a sua construção ano após ano.

Nesse ano as festividades foram bastante rentosas e então os festeiros deitaram mãos à obra e com aquele espírito de boa vontade que sempre animava o bom povo desta terra aplanaram o terreno até então de cultivo e construíram o tal coreto embora que descoberto, importando em cinquenta e quatro mil reis.

Ainda nesse ano de 1886 por sugestão de José da Conceição Pinto, no sentido de embelezar o Largo do Coreto, foram feitas seis bonitas consolas e sobre as quais colocados outros tantos vasos de flores de onde sobressaiam as letras A M entrelaçadas.

Nas festividades do ano de 1887 foi o Coreto estreado com a actuação da Banda da Infantaria Cinco composta por dezoito músicos e coros o que importou em setenta e dois mil reis, ficando o segundo dia da festa, em que é festejado o Mártir São Sebastião, a cargo do Conjunto Sol e Dó pela quantia de oito mil reis.

Esta obra passou a ser a menina bonita da terra e, como novidade, vieram pessoas das aldeias circunvizinhas para a verem e apreciar. No ano de 1895 os festeiros, antes das festas, mandaram repintá-lo, tendo sido gasta a importância de cinco mil reis, incluindo o trabalho do pintor e as respectivas tintas.

Para evitar o problema das chuvas, que normalmente caiem no mês de Setembro, quando decorrem as festividades, no ano de 1910, logo após a implantação da República, a Comissão dos Festeiros, sendo juiz o ilustre médico Dr. António de Azevedo, decidiu construir a cobertura do Coreto até então descoberto e nesse sentido foi contratada a Metalúrgica Ld.ª em Lisboa e esta uma vez concluída foi devidamente montada no ano de 1911, importando em cento e oitenta e nove mil reis (ter em atenção que o escudo só foi cunhado no ano de 1917).

Sendo as iluminações das festas feitas a carbureto em frente da Capela foi construída uma base em pedra de onde sobressaía um candeeiro em ferro com três grandes lampadários igualmente em ferro que iluminavam todo o adro.

No ano de 1914 o Coreto voltou a ser pintado sendo destruídas as consolas que o ornavam e decidido separar as festas mundanas das religiosas por imposição do Prior de Carnaxide (Freguesia), sendo o Coreto entregue aos cuidados da Academia Recreativa, embora fazendo parte integrante dos bens da Capela e a partir daqui este entrou em esquecimento, situação que se manteve durante anos.

Entretanto por decisão da Direcção da Academia a base do Coreto serviu durante largos anos de abrigo a algumas famílias entre estas um casal de idosos, a velha Inácia e sua neta Maria do Rosário e a família Ramalhete, Manuel, Rosa e o filho Victor, situação que se manteve até ao início da década de sessenta.

Anos passaram, Linda-a-Velha assumiu o Estatuto de Vila e de Freguesia e foi durante a presidência de António Joaquim Moreira que o Coreto foi electrificado e voltou a ser pintado, sendo durante a presidência do Dr. José Pedro Resende Barroco restaurada e pintada a sua cobertura que se encontrava um tanto danificada.

Este Coreto dos mais bonitos do Concelho de Oeiras é o nosso orgulho e ali têm actuado variadíssimas Bandas e Conjuntos Musicais, e utilizado o seu adro para grandes bailaricos e alguns casamentos ali foram acertados e concretizados. Se aquelas pedras falassem muito nos contariam da vida deste Coreto.

Ainda durante a presidência do Dr. José Pedro Resende Barroco este teve a ideia de serem utilizados os muros do Largo ou a própria base do Coreto para gravar um memorial sobre o passado histórico de Linda-a-Velha, tendo-me convidado para elaborar os respectivos textos, os quais seriam ilustrados por um elemento da especialidade que chegou mesmo a ser contactado, tomando como base fotografias da época, o que não chegou a concretizar-se, embora a ideia fosse interessante.

Aqui deixo uma breve resenha sobre o nosso Coreto e daquilo que representa para a Vila de Linda-a-Velha. É pena que não seja utilizado com frequência dando assim jus à ideia que levou à sua construção no ano de 1876, data que, aliás, devia ser gravada na sua base para conhecimento dos vindouros.

 

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UMA HISTÓRIA DE VIDA E DE AMOR

…HOMEAGEANDO MEUS PAIS LAURA E AIRES FERNANDES

Pais de Joaquim Fernandes

Joaquim Fernandes 2013 Dezembro/30

Falar de Linda-a-Velha e das suas gentes sem falar de meus pais seria de facto um acto imperdoável.

Meu pai, beirão nascido em Espariz, concelho de Tábua, Distrito de Coimbra em 17 de Abril de 1903 e minha mãe lisboeta, nascida em Caselas-Ajuda, Distrito de Lisboa, em 14 de Julho de 1909.

Muito cedo o meu pai, penso que com dez anos veio para Lisboa aos cuidados de seu irmão Joaquim, bem mais velho visto ser filho do primeiro casamento do meu avô José, para aprender a profissão de padeiro na sua padaria de Linda-a-Velha onde igualmente trabalhava o seu irmão António cinco anos mais velho. Porque trabalhar com familiares não é muito recomendável, o meu pai sofreu bastante, eu diria que foi mesmo escravizado mas depressa aprendeu a profissão fazendo-se um excelente profissional naquela arte e pelas suas mãos muitos moços passaram para aprender e de todos fez amigos porque sempre os tratou com um carinho quase paternal.

Mais tarde, arranjou uma venda de pão não só em Linda-a-Velha, como em Carnaxide, Outurela e Portela e chegou mesmo a ter fregueses em Algés, primeiro utilizava uma bicicleta mas como a venda cresceu depois servia-se de um burro para o transporte do pão, mas apesar disso nunca deixou de trabalhar na padaria.

Minha mãe bastante cedo foi aprender costura com uma alta modista residente na Calçada do Galvão em Belém e, sendo uma mulher inteligente, depressa se diplomou e passou a exercer a profissão por conta própria. Residia então na Portela da Ajuda (Concelho de Oeiras) onde meu pai fazia venda de pão, sendo o meu avô Daniel um dos seus fregueses. Assim passou a ver diariamente a minha mãe que costurava junto à porta de entrada e começou por trocar conversa com ela e tanto conversaram que ele se apaixonou e, embora receoso, atreveu-se a enviar-lhe uma carta em papel cor-de-rosa dando conta do seu amor. Na altura já tinha falecido a sua mãe e minha avó Teresa, bem como nove das suas irmãs todas com a pneumónica.

Tanto quanto me foi dado a conhecer ela também gostava dele, pois o meu pai era um homem alto, bonito e com algum jeito para conquistar as mulheres e aconselhou-se com o meu avô que também o achava um bom rapaz e bastante trabalhador, mas apesar do conselho favorável não o aceitou, o que levou a receber uma nova carta ainda mais apaixonada, embora com alguns erros de português pois o meu pai não completou a instrução primária e recebeu o sim muito esperado.

O namoro que durou cerca de um ano foi iniciado à janela sob a vigilância de meu avô e à janela se manteve até ao dia do casamento o que aconteceu no dia 6 de Agosto de 1933 na Igreja Paroquial de São Romão de Carnaxide e só aí foi dado o primeiro beijo. Eram outros tempos!

Foram difíceis os seus primeiros tempos de casados. Os ordenados eram pequenos em nada compensadores do muito trabalho que realizavam e embora a minha mãe depressa arranjasse algumas freguesas aqui em Linda-a-Velha os trabalhos na época eram executados por uma ninharia, mas porque trabalhava bem a melhor publicidade foi feita boca a boca e depressa arranjou tantos clientes que a levaram a trabalhar durante todo o dia e grande parte da noite e teve de admitir aprendizas para aprenderem e, simultaneamente, a ajudarem, das quais se destacou a Alexandrina a quem a minha mãe atribuía serviços de responsabilidade e, inclusivamente, muitas das provas em casa das clientes.

Depois de uma tentativa frustrada e um inesperado aborto nasci eu no dia 1 de Março de 1935 na Rua Tomás Ribeiro nº 2-1º em Linda-a-Velha, onde moravam os meus pais, com cinco quilos de peso, às 16:45 horas, passando a constituir o menino da família, onde com excepção do meu primo Guilherme, filho de um irmão de minha mãe, igualmente Guilherme, só havia raparigas e assim carinhos não me faltaram e lá andava de casa em casa e de colo em colo. Foram convidados para padrinhos os meus tios Joaquim Fernandes Alves e sua mulher Felicidade de Jesus Alves, aliás fizeram questão de me apadrinhar mas embora bastante ricos nada me deram e os sacrifícios dos meus pais redobraram, mas apesar disso, a minha infância decorreu sem problemas de maior. Era uma criança feliz.

Dada a profissão da minha mãe dos fatos velhos das minhas primas Maria Elisa e Maria Manuela fazia os meus fatos. Sendo a minha mãe uma mulher de bom gosto os fatos ficavam lindos e assim, quando saia com ela ou o meu pai, só me tratavam por príncipe. A roupa velha bem aproveitada às vezes faz milagres, era o caso.

Nos anos quarenta o País entrou em racionamento dos bens de primeira necessidade e o pão a grande base de alimentação dos pobres e pobres era o que mais havia nesta terra escasseava, o meu pai comprava farinha ao moleiro da Rocha/Carnaxide e por volta das 02:00 horas da manhã transportava às costas sacas de oitenta quilos, subindo a estrada da Rocha e ainda durante a noite a minha mãe peneirava e preparava a farinha, serviço que a fez descurar em grande parte a costura com muita pena das suas clientes e era também durante a noite que o pão era preparado. Na altura a Intendência Geral de Abastecimentos era severa com os infractores as multas eram constantes e havia até prisões, pelo que tudo tinha de ser feito pela calada. Isto para que não faltasse o pão aos seus fregueses e muitos destes, no mais completo desrespeito, comeram-no e não o pagaram. O meu pai era bom, condoído do mal alheio, tinha um grande coração e muitas vezes abusavam da sua bondade e prejudicava-se em benefício dos outros tendo de pagar o que estes não lhe pagavam.

Eu crescia a olhos vistos mas raramente saía de casa a não ser para ir para a casa dos meus padrinhos que tinham um grande quintal e eu distraía-me a brincar com os animais e algumas marradas de cabra levei. A cabra era mesmo cabra, ou então no Beco Machado para brincar com os miúdos que ali viviam e de onde ela me podia vigiar bem. Brinquedos não possuía a não ser aqueles que eu próprio fazia, como também inventava as minhas próprias brincadeira e de brincadeira em brincadeira construía histórias e as vozes das suas personagens e aos poucos nasceu em mim a arte e o gosto pela representação, fazendo do terraço da minha casa o meu primeiro palco e a paixão pelo teatro criou raízes quando ainda criança e, nesse espírito, integrei um grupo de teatro infantil que actuava na nossa Academia Recreativa, tendo mais tarde feito parte do grupo residente “Os Infantes”.

Feita a instrução primária resolveram os meus pais pôr-me a estudar numa escola secundária, contrariando a ideia dos meus padrinhos que entendiam que eu devia praticar para ser o caixeiro da padaria. Para quê estudar o rapaz precisa é de aprender a trabalhar para ser um homem, mas contra tudo e contra todos e fazendo a vontade do meu avô Daniel (o único avô que eu conheci) fui matriculado numa Escola Industrial pois tinha forçosamente de ser engenheiro. Tudo isto sem ninguém ouvir a minha opinião.

Às vezes os fregueses de meu pai censuravam-no por ter posto o filho a estudar pois eram raros os que na época o faziam e ele desculpava-se dizendo que eram os padrinhos que pagavam tudo, eles que eram os primeiros a criticá-lo. Eram tempos difíceis em que as pessoas quando pobres quase tinham de pedir licença para viver.

Feito o 2º ano com aprovação havia que decidir qual o curso que devia seguir se mecânica geral, mecânica de automóveis, carpintaria, electricidade, desenho, enfim qual? Eu não estava vocacionado para nenhum e então foi chamada à Escola a minha prima Maria Manuela em substituição do meu pai dado os seus afazeres profissionais e o Director disse-lhe: “minha senhora é melhor transferir o rapaz de escola porque ele não quer nenhum dos nossos cursos” e foi assim que fui transferido para outra escola preparando-me, durante as férias, para os exames de transição que foram necessários efectuar.

Feitos os exames ingressei na nova escola e sentia-me feliz, tendo chegado a escrever para o seu jornal e ingressado no seu grupo de teatro onde funcionava como primeiro declamador.

Completado o antigo 7º ano liceal e preparado para ingressar na Faculdade para um curso de direito para que estava vocacionado, contra tudo e contra todos dei preferência ao curso de teatro do Conservatório Nacional.

Acontece que a minha família nunca aceitou semelhante situação e massacraram os meus pais, no caso mais a minha mãe, provocando-lhe um mal-estar constante e além de só me tratarem por palhaço, cortaram relações comigo. Cada espectáculo realizado cada tortura que tinha de suportar, ia sempre enervado para o teatro, até que o meu maior gosto se tornou no maior desgosto e em perfeito desespero candidatei-me a um lugar no Sindicato Nacional dos Empregados de Escritório do Distrito de Lisboa e embora nada soubesse de corporativismo tinha grande facilidade de argumentação e a entrevista decorreu em ambiente de grande animação e fui contratado, deixei o teatro, porém, em meu espírito, no meu coração ele mantinha-se bem presente. O teatro foi e é a minha grande paixão.

Uma coisa melhorou na minha vida é que enquanto actor não tinha salário certo, trabalhava ganhava não trabalhava não ganhava e nem sequer beneficiava da Segurança Social. Não havia direitos mas, outrossim, exigências de vestuário entre outras, no Sindicato tinha salário mensal certo e direitos sociais. Nesse aspecto melhorei e já podia ajudar os meus pais o que não acontecia até então.

Entretanto o Sindicato convidou-me a integrar o seu grupo de teatro “O Proscenium”, dirigido e encenado pelo grande actor do Teatro Nacional Pedro Lemos, que actuava na Academia de Santo Amaro o que prontamente recusei pois se deixei o teatro profissional para ingressar no Sindicato, não ia abrir uma ferida que ainda sangrava voltando ao teatro, mas foi com tristeza que o fiz.

Mas porque é dos meus pais que pretendo falar e não de mim, embora faça parte deles, prossigamos.

Fruto de muito trabalho e trabalho duro os meus pais envelheceram muito cedo e eu sentia-me feliz por poder ajudá-los proporcionando-lhes prazeres que até aí nunca tinham tido e que mereciam e assim, anualmente, fazíamos férias em família ficando instalados em bons hotéis, iam ao teatro e aos fados com frequência e muito mais porque, graças a Deus e a muito esforço, a minha vida profissional prosperava a olhos vistos e eles sentiam-se felizes, eles eram felizes. Enfim, os meus pais sendo os mais pobres da família tiveram a velhice que os parentes endinheirados não conseguiram ter. É assim que acontece a quem é escravo do dinheiro. As pessoas muitas vezes esquecem-se que nós não somos donos de nada mas apenas administradores dos bens que Deus nos confia.

Sacrifiquei a minha vida em muitos aspectos mas sinto-me feliz por ter proporcionado aos meus pais o carinho e o amor que bem mereciam.

Entretanto sendo convidado a desempenhar funções de Director de Pessoal da Metalúrgica Luso-Italiana SA mais tarde associada da Lisnave a minha vida melhorou substancialmente, mas foi com bastante esforço que me integrei numa actividade que desconhecia completamente. Um dia numa reunião de administração a que assistia por força da minha função um dos administradores disse-me “você disse que fazia teatro, você está fazendo teatro connosco!” E estava!

Sofri bastante com o internamento hospitalar de minha mãe com um edema pulmonar e logo de seguida meu pai deixou-me no dia 24 de Julho de 1981 e o meu carinho pela minha mãe redobrou de modo a que não sentisse muito o afastamento do meu pai e ela sentia-se feliz e adorava viver. Era a minha menina, a minha Lauraquinha.

Quando nada o fazia supor a minha mãe deixou-me no dia 1 de Agosto de 1987 e eu entrei numa depressão e estive muito mal e durante largo tempo andei em psiquiatria e levei anos a fazer o seu luto.

Para mim os meus pais não morreram, apenas se afastaram, estando crente, perfeitamente crente que um dia nos encontraremos. Enquanto isso, vivem permanentemente no meu coração e na minha saudade.

 

 

 

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UMA HISTÓRIA DE AMOR

 

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Joaquim Fernandes Linda-a-Velha, 2013  Novembro / 30

Foi em Fevereiro do ano de 1962 quando ao serviço do Sindicato dos Empregados de Escritório do Distrito de Lisboa onde me empreguei depois que, por problemas familiares, fui forçado a abandonar o teatro, me desloquei em serviço à cidade do Porto para recolher elementos tendentes ao projecto de actualização do diploma respeitante aos salários mínimos dos profissionais de escritório, deslocações que aconteceram mais tarde em relação a outras zonas do País, fiquei instalado no Hotel Batalha, onde tive oportunidade de conhecer o amigo “Pierre”, empregado superior de uma escola francesa que também ali se encontrava em serviço.

Feitas as apresentações trocámos ideias sobre as nossas vidas profissionais e, consequentemente, da nossa vida pessoal, tendo-lhe dado conta da minha tristeza em ter abandonado os palcos, visto ser profissional de teatro, para ser empregado corporativo, estando ainda de certo modo preocupado com o facto de estar em mudança de residência, o que acontecia a partir do dia 1 de Março e os meus pais que viviam comigo, não o poderem fazer sozinhos, embora a nova residência fosse na mesma rua, um pouco mais abaixo, facto que me levava a trabalhar todas as horas possíveis para me despachar a tempo de o poder fazer.

Quanto ao amigo “Pierre” este disse que embora português nascido em Alfama, esteve largos anos em França e que tinha casado há relativamente pouco tempo e, apesar de não me ter dito a idade, aparentava ter sessenta anos, o que me levou a ficar um tanto surpreso mas, continuando, acrescentou que quando jovem se enamorou de uma linda rapariga e chegaram mesmo a apaixonar-se pensando contraírem matrimónio.

Porém os familiares de ambos impediram o casamento e foi com grande, desgosto que se deixaram. Estávamos numa época em que os filhos obedeciam cegamente aos pais, independentemente da idade que tivessem, ao que eu lhe contei ter sofrido do mesmo mal em variadíssimos aspectos da minha vida.

Entretanto, o amigo “Pierre” acabou por casar com uma prima correspondendo assim às especiais preferências das respectivas mães e partiram para França onde nasceu a sua filha Natália, tendo regressado a Portugal em meados dos anos cinquenta, empregando-se numa escola francesa e ao serviço desta fez algumas deslocações ao Porto e foi no Café que encontrou uma senhora com quem meteu conversa e as histórias de vida eram tão coincidentes que ele acabou por perguntar-lhe se por acaso se chamava Elisa ao que respondeu afirmativamente e, quando lhe disse ser o Pedro, caíram nos braços um do outro. Tantos anos passados voltaram a encontrar-se e sendo ambos viúvos encetaram um novo romance de amor e as idas do “Pierre” ao Porto quer em serviço quer não eram uma constante até que conseguiu trazê-la para Lisboa acabando por contraírem matrimónio no Mosteiro dos Jerónimos, tendo sido apadrinhados pelos seus próprios filhos, a filha dele e o genro apadrinharam a Elisa e o filho dela e a nora apadrinharam o “Pierre” e depois desta nossa longa e agradável conversa firmámos uma boa amizade.

A nossa amizade manteve-se, a Elisa foi-me apresentada, conviveram com os meus pais, tendo acabado por virem residir para Linda-a-Velha no ano de 1965 e as nossas visitas eram frequentes. Era um casal amoroso!

A Elisa e o “Pierre” faleceram nos anos oitenta, mais concretamente no ano de 1981, precisamente no mesmo ano em que morreu o meu pai.

Este casal que tanto se amou e que separados na juventude um dia se encontraram na velhice e Deus abençoou, hoje felizes e contentes passeiam-se pela Estrada da Eternidade e eu, que tenho visto partir ao encontro de Deus tantos dos meus amigos, deixando-me cada vez mais pobre de afecto e de amor, continuo a peregrinar pelo caminho da vida, revivendo todos os dias amizades que a morte não apaga. Na nossa vida, há histórias de gente que fazem parte da nossa história.

 

 

 

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