Monthly Archives: Novembro 2013

OS ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO DA MINHA JUVENTUDE

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Joaquim Fernandes in 31 de Outubro de 2013

Um dia, já lá vão setenta anos, acompanhando o meu pai à Portela da Ajuda, ao passarmos pela quinta do Sr. Américo das Neves e sua esposa Zulmira um casal que sempre estimei e que mais tarde vieram residir para Linda-a-Velha, pais das minhas boas amigas Lourdes e Mariana, fiquei encantado com uma ninhada de pintos garnizé guiados pela mãe galinha da mesma raça (ele chamava-lhe de galinha da India), eu nunca tinha visto uma galinha tão pequenina e estava encantado senão que surpreso, tão surpreso que o sensibilizou e me ofereceu uma franguinha daquela raça e eu lá vim feliz e contente com aquela oferta. A franguinha era muito bonita com penas matizadas de várias cores.

A minha mãe, tal como eu, ficou maravilhada com a franguinha a que logo chamou de TITI começando a tratá-la com todo o carinho e muito cuidado e esta foi crescendo atingindo, dentro da sua pequenez o tamanho máximo fazendo-se galinha e dos ombros e cabeça de minha mãe o seu poleiro preferido, embora na época, os meus pais tivessem uma capoeira com muitas galinhas e outros animais de criação que frequentemente vendiam, o que também acontecia com os ovos, a TITI tinha tratamento de excepção e jamais se misturou com as suas congéneres, supondo que esta até teria medo tal o mimo com que era tratada. A TITI era uma senhora galinha, portanto nada de misturar-se com a raia miúda.

Foi uma festa quando pôs o primeiro ovo escolhendo como ninho a sala de costura de minha mãe que era modista, mais propriamente, o cesto dos trapos que então eram vendidos a peso ao ferro-velho juntamente com garrafas e outras ninharias de somenos importância. De resto esta sala era o seu local predilecto para estar mais perto da minha mãe e se passava pelo terraço era apenas para saltar para os vasos das flores e esgravatar na terra o que a minha mãe não consentia. As flores na minha casa tinham um lugar muito especial.

A TITI era esperta, embora se diga que as galinhas são estúpidas, mas apesar das insistências da minha mãe, nunca a convenceu a utilizar para os seus excrementos o caixote que lhe destinou e fazia-os por aqui, por ali, onde calhava, obrigando-a a andar sempre a limpar, contrariamente ao gato CAROCHO que sempre utilizava o seu caixote com areia, enquanto ela era uma porcalhona descarada.

E já que falámos do CAROCHO este, estranhamente, dava-se muito bem com a TITI e a amizade desta era recíproca e quase sempre dormiam juntos e ele que até mordia com frequência e era um bom caçador para a TITI era um bonacheirão, engraçou com ela e adoptou-a, contudo, não lhe permitia que comesse do seu prato, amigos, amigos, mas sem comunhão de alimentos. A minha mãe muitas vezes, por graça colocava sobre a toalha da mesa um cartão onde punha o prato da TITI e ela ali estava comendo juntamente connosco feliz e contente pois era da nossa comida o que mais lhe agradava e, sinceramente, não me lembro que alguma vez tivesse sujado o cartão.

Poucos foram os ovos que pôs mas sempre que o fez o ninho preferido era o cesto dos trapos e quando chocava era ali que tirava os pintos nunca mais do que sete porque era pequenina mas uma mãe muito cuidadosa e à noite cobria-os muito bem, agasalhando-os com o calor das suas asas, só que os pintos cresciam e por fim já quase maiores que ela, visto serem de raça diferente, quando se aninhava para os tapar ficava no ar suportada pelos filhos. Era uma graça! Logo que os frangos lhe eram retirados e passados para junto dos demais galináceos a TITI voltava a reclamar as caricias da minha mãe.

Acontece que o gato CAROCHO morreu de velho e foi adoptado para o substituir um gatinho todo branco o PIROLITO (na época havia uma bebida efervescente cuja tampa era um berlinde que uma vez empurrado destapava o frasco e saía a bebida e se chamava pirolito) e foi este o nome escolhido para o gato. Era uma ternura, muito manso e brincalhão e a minha mãe começou a mimá-lo descurando um tanto a TITI que não gostou nada da graça de ser trocada pelo gato e desatou a picar-lhe desalmadamente e a corrê-lo sempre que este se aninhava junto dos seus pés. Ela ralhava-lhe mas a TITI não tinha emenda, nem emenda nem vergonha e cada vez lhe picava mais até que um dia a minha mãe enfureceu-se apanhou-a e deu-lhe uma palmada e a partir desse momento a boa da TITI não mais saltou para os seus ombros. Ficou tão sentida e magoada que evitava estar na sala de costura e se nunca deixou de picar o gato não o fazia com tanta frequência, passando a utilizar o terraço, mas pouco lá parava, pois sendo a minha casa um primeiro andar na Rua Tomás Ribeiro, avistavam-se todos os telhados das casas que ficavam em plano inferior do Beco do Machado situado paralelamente, até à Casa de Pasto do Sr. Luís da Chalaça na esquina da calçada do chafariz. Então a TITI aprendeu a saltar o muro do terraço e daí para os telhados que corria até à Casa de Pasto, onde frequentemente a vi, regressando a casa no final do dia com o papo bem cheio não sei de quê, supondo que de insectos e daquelas ervinhas frescas que, normalmente, nasciam naqueles velhos telhados quão velhas eram as casas que cobriam. Tornou-se numa galdéria como a minha mãe lhe chamava.

Quando velhinha, teria catorze anos, tinha dificuldade de andar e muito menos de voar e a minha mãe friccionava-lhe as patinhas com o mesmo remédio que o meu pai usava para as dores reumáticas cujo nome não me ocorre apenas me lembro de cheirar mal e depois deixava-a um pouco a apanhar Sol e o certo é que melhorava, arribava, mas os anos não perdoam e a TITI deixou-nos e numa caixa de cartão foi enterrada num canteiro do jardim dos meus padrinhos, deixando saudades.

Esta é a história da vida daquela franguinha que um dia me foi oferecida.

Na minha casa os animais de estimação morriam sempre de velhos, e foi o caso dos gatos CAROCHO e PIROLITO, o coelho CHICO que utilizava como sanitário a pia do lava-loiça em que teve de ser tirada a porta para ele entrar e sair quando necessário, que também morreu de velho, a rolinha NININHA que igualmente utilizava como poleiro a cabeça da minha mãe, sem esquecer o burro RUSSO que sempre que chegava junto da nossa porta com a boca tocava, insistentemente, a aldraba para que a minha mãe descesse e lhe desse uma cenoura. A idade levou-lhe os dentes quase todos mas mesmo assim comia bem e quando já não era necessário ao meu pai este nunca o abandonou e no final do dia lá ia à sua cocheira encher-lhe a manjedoura de palha e favas e o recipiente de água fresca até que um dia ao chegar o RUSSO tinha terminado os seus dias.

Foram estes os animais de estimação da minha juventude e ainda hoje, embora que afastado dele por motivos de saúde, mantenho o meu canário TININHO que já vai com bastantes anos de vida.

Deixo como conselho a todos que mantêm animais de estimação de que devem acarinhá-los e protegê-los e nunca abandoná-los pois isso constitui crime contra a natureza.

 

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O abastecimento de água da aldeia de Linda-a-Velha

Abastecimento de Água

Joaquim Fernandes in 5 de Novembro de 2013

Quando no ano de 1951 a aldeia de Linda-a-Velha foi dotada do abastecimento público de água, foi inaugurado o respectivo fontanário, sendo para o efeito convidada uma bonita rapariga a Antonieta para efectuar a abertura da torneira e proceder assim ao enchimento de uma bilha de barro de cuja asa pendiam fitas verdes e vermelhas, supostamente seria esta a primeira utilização; tudo isto ao som de vibrante salva de palmas. Foi uma cerimónia simples como simples era esta gente. Mais tarde essa rapariga acabaria por contrair matrimónio com Augusto Berneaud, um dos homens valorosos desta terra.

Era então Ministro das Obras Públicas o Eng.º José Frederico Ulrich que nesse dia foi homenageado, passando o seu nome a constar da toponímia da aldeia, substituindo assim a anterior denominação de Estrada de Algés de Cima, o que também aconteceu em relação ao Conde de Rio Mayor Presidente da Câmara Municipal de Oeiras, cujo nome foi atribuído a um pequeno jardim junto ao fontanário.

Assim, a partir daquele momento o fontanário ficou instalado na Rua Eng.º José Frederico Ulrich, mais propriamente no Jardim Conde Rio Maior, tendo procedido à inauguração oficial o Dr. Mário Madeira Governador Civil de Lisboa, precisamente no mesmo dia em que também inaugurou o Mercado Municipal de Algés e a rede de luz eléctrica em Bemposta.

As entidades oficiais presentes, entre estas o Presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Carnaxide, Comissário da Polícia de Segurança Pública de Oeiras e Prior da Freguesia (Carnaxide) entre outros, foram recebidos com grande pompa, havendo discursos de circunstância, foguetes e festança durante o resto do dia. Eram tão poucas as inovações que qualquer coisa fora do habitual que pudesse acontecer era sempre largamente festejada.

Passados pouco mais de três anos tudo foi sendo alterado aos poucos pois entrando de rompante o progresso no ano de 1955 esta aldeia cheia de tradição e de valores em pouco tempo ficou virada do avesso, sendo abertas ruas, electrificadas outras, destruídas lindas vivendas, entulhados e tapados muitos dos poços existentes e, inclusivamente, desmontado o velho chafariz do ano de 1821 e, consequentemente, os tanques públicos para a lavagem de roupa, porquanto, os dois poços do povo deixaram de existir logo aquando da inauguração do fontanário. Enfim, tudo se foi, velozmente, à frente do camartelo, enquanto as pessoas foram obrigadas a celebrar contrato com a Companhia das Águas de Lisboa para poderem beneficiar desse precioso e indispensável líquido.

Entretanto, aquele pequeno jardim Conde Rio Mayor, aliás bastante aprazível, passou a ter bastante frequência mais propriamente os velhos que, durante as noites de Verão ali reuniam, conversavam, recordavam a juventude e bebiam um pouco daquela água até ali desconhecida. Era uma graça, bastava abrir a torneira e a água logo corria sem necessitar de a bombear como antes acontecia. A título de homenagem lembro com carinho, os nomes de alguns destes indivíduos: Catarina de Jesus e seu marido António, Genoveva e seu marido António Sant’Ana, Maria da Luz, Antónia Pereira, Ermelinda Santos, Ezequiel e José Coelho entre outros. O jardim era pequeno mas de facto muito agradável, possuindo alguns canteiros de roseiras e aquelas seculares palmeiras ainda ali existentes.

Mas voltando ao convívio dos velhotes este era tão frequente que o Grupo de teatro Amador “Os Infantes” residente da nossa Academia Recreativa, a par com o outro grupo “Os Académicos”, pela calada da noite foi auscultando, coscuvilhando as conversas trocadas, os gestos e posturas assumidos e preparou um quadro humorístico que para ser uma completa surpresa, não só dos envolvidos, como dos demais habitantes, os ensaios, contrariamente ao habitual, não foram efectuados na Academia mas num salão do primeiro andar da residência da nossa grande amiga Maria Ana Ribeiro Santos (Aninhas como era conhecida) que com a maior paciência e a bondade que lhe eram peculiares disponibilizou-se a aturar a barulheira de toda aquela criançada, sem contar com algumas tropelias próprias da juventude.

Sem saberem o que os esperava eles próprios emprestaram os seus vestuários e quando o espectáculo foi estreado eles lá estavam sentados nos bancos da frente, o que também teria acontecido se não fossem convidados, porque todos os habitantes da terra tinham pelos seus artistas o maior carinho e orgulho e nunca deixavam de os ver e aplaudir. Todos acharam muita graça e riram a bom rir, com excepção do Ezequiel que, instigado pela mulher, se manifestou com bastante desagrado. Acontece que o Ezequiel andava pela rua sempre com o seu celebérrimo casaco de pijama amarelo e foi assim que ele foi apresentado em cena. A título de curiosidade fui eu próprio que desempenhei a sua personagem com o casaco de pijama amarelo emprestado pelo Augusto Berneaud pois ninguém teve coragem de pedir-lhe emprestado e eu não tinha qualquer pijama amarelo. Ainda a propósito lembro-me que o bigode postiço que fazia parte da personagem caíu em cena no copo da água que, supostamente, tinha sido tirada do fontanário e, atirando-o, por graça, para a sala, logo caíu, precisamente, no colo do Ezequiel, apesar de não ter sido essa a minha intenção.

Embora tudo isto fosse motivo de desagrado e de crítica do Ezequiel o certo é que jamais se passeou pela rua de casaco de pijama.

Entretanto, tendo sido vendida a grande quinta do Tenente-Coronel José Ferraz junto á qual estava instalado o fontanário, foi o mesmo desmontado e reconstruído na Rua Fontes Pereira de Melo mesmo por baixo do velho pontão que separava esta da Rua Tomás Ribeiro, aquele pontão onde o povo descansava dos afazeres do dia, conversava, namorava, enfim, muito mais, pois fazendo jus a tudo isto o mesmo era considerado o tribunal a par do velho chafariz, igualmente assim considerado. Dizia-se então que ali se desenterravam os mortos e enterravam os vivos, claro que no bom sentido, mas…

Vendida e demolida a linda residência de Maria Ana Ribeiro Santos para ali ser construído o grande imóvel onde presentemente se encontra instalada a dependência da Caixa Geral de Depósitos. A obra teve vários problemas pelo que esteve vários meses embargada tendo acabado com o velho e saudoso pontão e com ele lá se foi para todo o sempre o fontanário e a partir desse momento Linda-a-Velha ficou sem qualquer fonte ou um simples bebedouro público, enquanto aquele bloco de cimento crescia disforme, sem graça e várias imperfeições, entre estas o facto de ter deixado a rua sem saída. Será que a Câmara Municipal de Oeiras não observou esta grande lacuna? Se calhar algo mais se passou que, sinceramente, nos ultrapassa.

Há anos, depois de muitas instâncias, foi-me prometido pela nossa Junta de Freguesia que o dito bebedouro ía ser construído como antes já havia sido garantida a reconstrução do velho Chafariz de 1821 mas tudo ficou no esquecimento.

Tenho pena, muita pena que do povo antigo desta terra já pouco resta e o actual, desconhecedor destas realidades, entre outras situações análogas, não bata o pé, não dê um murro na mesa e reclame, com alguma insistência, que estes valores sejam repostos pois lá diz o provérbio “Água mole em pedra dura tanto dá até que fura”.

Há terras e terriolas que lutam e defendem, com toda a gana, os valores das suas aldeias, vilas e cidades o que aqui não acontece e de Linda-a-Velha de outros tempos pouco sobrou.

Lamento que esta terra onde nasci e que tanto gosto tenha um povo demasiado brando, acomodado e desinteressado.

 

 

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AS CRIANÇAS DE LINDA-A-VELHA NO SEU TEMPO ESCOLAR, SUAS BRINCADEIRAS E DISTRACÇÕES

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Joaquim Fernandes in Linda-a-Velha, 19 de Novembro de 2013 

Recordar os velhos tempos de Linda-a-Velha sem falar em pormenor da sua juventude seria imperdoável. Assim vou fazê-lo tendo em atenção os anos quarenta, porquanto, a partir do ano cinquenta a vida das gentes e, consequentemente dos moços, começou a sofrer algumas alterações dado os terrenos antes cultivados pelos grandes lavradores da região e, inclusivamente, as grandes quintas e vivendas terem sido vendidas e adaptadas à construção civil que estava a desenvolver-se em grande força, senão que velozmente, levando à frente do camartelo memórias que o tempo não apagará jamais e trazendo consigo novos habitantes, novos hábitos, novas vivências e uma juventude completamente diferente, inclusivamente, nas brincadeiras e costumes das crianças que antes se resumiam ao futebol com bolas feitas de trapos envoltos em meias velhas, à macaca, ao malho, ao pião, ao berlinde, ao eixo e, frequentemente, ao arquinho conduzido por um arame arredondado na ponta e assim corriam Linda-a-Velha de lés a lés sem que o arquinho caísse, aliás não podia cair, o que era uma vergonha sujeita à chacota dos demais miúdos que presenciassem, mas a brincadeira mais vulgar seria o futebol e qualquer local servia para o efeito, desde o próprio campo de futebol, um pedaço de terra batida situado onde hoje se encontra instalado o Mercado Municipal emparedado com tábuas ou no largo do Coreto, aqui mais durante o recreio da escola primária, que ficava logo em frente.

As crianças que frequentavam a escola de cima como era conhecida instalada no rés-do-chão da Vivenda de Augusto Oliveira, igualmente situada na Av. Tomás Ribeiro, usavam a própria rua, ou estrada como era chamada, para efectuarem os seus jogos com balizas imagináveis ou marcadas por pedras e faziam-no descansadamente pois automóveis não havia, eram raríssimos e as camionetas da carreira além de poucas eram tão ronceiras que pouco ou nada os incomodava, seriam estas que se afastavam  deles e não eles que se desviavam e com que tristeza ouviam o retinir da campainha usada normalmente  por aquela professora, dando por concluído o intervalo escolar.

No caso das meninas as brincadeiras eram um tanto diferentes, embora algumas jogassem futebol na perfeição, brincavam aos cinco cantinhos, às escondidas, aos potes, ao lenço, à linda falua ou fazendo rodas com as velhas canções, já usadas pelas suas mães e avós e que ainda se encontram na actualidade. Seriam raras as que se sentavam para lerem as histórias infantis então editadas, que eram bonitas e moralizadoras.

Às vezes, cansadas das brincadeiras, sentavam-se num qualquer banco ou soleira de porta fazendo cordão, o que muito entusiasmava quer os rapazes quer as raparigas que, servindo-se de um carrinho de linhas de madeira, pregavam quatro pequenos pregos e transformavam pedaços de lã e de cordel fino num tipo de entrançado a que chamavam cordão e, animados, produziam metros e metros que era utilizado nos sacos de tecido pois, na época, ainda não tinha sido inventado o plástico e para tudo eram precisos sacos de pano, designadamente, para o pão, para a carne, batatas, carvão e tudo mais. Havia os que tendo espírito de negociante procuravam vender o dito cordão a troco de algumas moeditas e conseguiam.

As professoras no tempo a que nos referimos, anos quarenta, Srªs D Edwiges Figueiredo e D. Guilhermina eram extraordinariamente exigentes não admitindo que quaisquer dos seus alunos chumbassem nos exames quer da terceira quer da quarta classes que na época eram rigorosos não havendo qualquer complacência por parte dos examinadores. Sabiam passavam, não sabiam reprovavam e uma reprovação num aluno proposto a exame era um descrédito, facto que as tornava um tanto severas no ensino e consequentemente, nos castigos que eram constantes. No caso da Sr.ª D. Edwiges uma simples falta de acento num ditado era um erro e se isso se repetisse por mais duas ou três vezes lá estava a palmatória para que não voltasse a haver esquecimentos ou falta de preparação.

Mas os dias eram longos e embora as escolas funcionassem das 09:00 às 13:00 e das 14:00 às 18.00 horas ainda permitia sobrar algum tempo para os que demonstravam algum talento poderem integrar o grupo de teatro infantil da Academia e com que orgulho assumiam os papéis que lhes eram distribuídos, isto sem descorar os recados de que normalmente eram incumbidos pelas mães quase todas trabalhadoras.

No período das férias grandes a criançada reunia em grupo e lá iam até ao Rio Jamor, o nosso rio que Cesário Verde celebrou em verso e aí davam largas às suas brincadeiras, utilizando as margens para armadilharem ratoeiras ou varas com visco e apanharem pardais e, neste entretanto, chafurdarem nas águas onde pelos seus próprios meios aprendiam a nadar e quantas vezes, no seu regresso, traziam algumas enguias que pescavam e os pássaros que apanhavam que constituíam um bom petisco e às vezes, presos numa cana alguma cobra ou lagarto para assustarem as raparigas.

Quando já sabiam nadar aventuravam-se e iam até à praia da Cruz Quebrada, quase sempre desrespeitando os conselhos dos pais o que lhes levava, aquando do regresso, a receberem, como recompensa, um bom par de açoites. A partir do dia seguinte, estando tudo esquecido, se a malta combinasse lá iam outra vez até à praia dar umas braçadas.

Ainda durante o tempo escolar, normalmente aos sábados, o dia estabelecido para trabalhos manuais e algumas cantigas, iam acompanhados dos professores até ao jardim da Rocha no Vale de Carnaxide, separado do Rio Jamor por um grosso paredão, um lindo jardim brilhantemente cuidado pelo jardineiro privativo, com residência no próprio local de trabalho, onde se viam canteiros sempre floridos qualquer que fosse a Estação e lagos bem cuidados onde viviam algumas dezenas de peixinhos vermelhos, enquanto os patos vagueavam rio acima, rio abaixo, sempre dispostos a comer os pedacinhos de pão que os garotos, por graça, lhe atiravam. Os miúdos comiam, faziam rodas e ouviam, atentamente, as histórias da História que a professora contava e pelo meio lá estava alguma matéria escolar, dizendo que, aquele local, foi várias vezes visitado pelos nossos últimos reis, tais como: D. João VI, D. Pedro V,D. Luís e de modo particular pela rainha D. Amélia de Orleans e Bragança que procedeu à inauguração do sumptuoso Santuário ali erigido em Honra de Nossa Senhora da Conceição da Rocha ali aparecida numa pequena gruta que ainda hoje é visitada com grande devoção. De resto, este Santuário onde se encontra a pequenina e Veneranda Imagem de Nossa Senhora, seria, antes do aparecimento de Nossa Senhora em Fátima (Cova da Iria) no ano de 1917 um dos locais mais visitado de todo o mundo católico e eram constantes as filas de gente para verem estes lugares sagrados que o Capelão Sr. Padre Ferreira sempre mantinha bem cuidados. Este recanto do Concelho de Oeiras era aprazível e bom para merendar e até passar o dia. Lamentavelmente, este jardim se é que se pode chamar jardim, não passa de uma vergonha dado o estado lastimoso em que se encontra. Será que a Câmara Municipal de Oeiras ignora a situação ou procura ignorar?

Quantos passeios foram organizados, designadamente, ao Jardim Zoológico, tendo para o efeito sido alugado um eléctrico à Carris para o transporte de Algés a Benfica que alguém generosamente pagou. Suponho ter sido a grande benemérita Sr.ª D. Joana da Glória Pedroso Simões Alves, aqui acompanhados por alguns familiares não fosse haver qualquer descuido por parte dos garotos que nunca ali tinham ido e cujo entusiasmo foi estrondoso.

Um outro passeio feito com frequência era à Tapada de São Mateus aqui bem perto desta terra a ao Moinho de Santa Catarina hoje inexistente e onde se encontrava uma forca que, suponho, nunca chegou a ser utilizada. Para quaisquer destes lugares eram sempre levados os respectivos lanches que depois eram partilhados pois havia garotos que, pelos poucos haveres dos pais, nada levavam.

As professoras eram exigentes, bastante rigorosas e boas educadoras mas as negligências, as distracções e o desrespeito não eram desculpados e para isso lá estava a palmatória que raros seriam os dias que não era utilizada e quando os garotos não aprendiam e nada se esforçavam por aprender, eram colocados à janela com umas enormes orelhas de burro e podiam chorar à vontade, com vergonha de quem os via, que nada comovia a professora, como também não permitia que os demais colegas se rissem da situação pois, por certo, não iriam rir por muito tempo. Lamentavelmente, muitos destes alunos frequentemente castigados nunca conseguiram completar a instrução primária.

Era assim o ensino nos anos quarenta e, certamente, nos anos vinte e trinta embora desconheça.

À noite acabavam-se as brincadeiras e, feitos os trabalhos escolares marcados pelas professoras e ai de quem os não fizesse, adormeciam, tranquilamente, pensando nas brincadeiras do dia seguinte.

Neste memorial recordo com carinho todos aqueles que comigo conviveram nestes anos quarenta e, de modo particular, elevo até Deus a minha oração por todos aqueles que já terminaram a sua passagem pela vida.

 

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RECORDANDO O DIA 1 DE DEZEMBRO DE 1640 E SEUS ANTECEDENTES

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Joaquim Fernandes in 30 de Outubro de 2013

Depois da morte do nosso malogrado rei Dom Sebastião na Batalha de Alcácer Quibir, na qual o jovem rei havia depositado a maior esperança e cuja victória tomou como certa e que os seus intentos não se realizaram, deixou Portugal miseravelmente desgastado de valores monetários e humanos e, fundamentalmente, sem herdeiro directo.

Dom Sebastião o rei desejado governou Portugal durante dez anos, nos primeiros tempos apoiado por sua avó a rainha Dona Catarina, tendo morrido com vinte e sete anos, sem contrair matrimónio. Era um jovem um tanto desumano, aplicando castigos de morte pelas mais pequenas coisas, altamente irrequieto e com acentuado horror pelo sexo feminino, sendo no seu reinado que se iniciou o tratamento do rei por majestade.

Após a batalha de Alcácer Quibir o povo não acreditou que o rei tivesse morrido e esperava o seu regresso com ansiedade e foi criado o sebastianismo que durou anos. Neste entretanto, alguns jovens se apresentaram como sendo Dom Sebastião mas foram desmascarados e mortos e embora se diga que o corpo do rei foi devolvido a Portugal eu creio, solenemente, que o túmulo que lhe está atribuído no Mosteiro dos Jerónimos se encontra vazio.

Assim, na falta de herdeiro directo a coroa de Portugal foi assumida por seu tio-avô Cardeal Dom Henrique, filho do rei Dom Manuel I, que, embora velho e doente ainda pensou casar para tentar dar um herdeiro à coroa mas não foi autorizado a fazê-lo pelo Papa. De resto a situação seria difícil dado a sua avançada idade e débil saúde pois sofrendo bastante do estômago a sua base de alimento era o leite de uma matrona de cujos peitos mamava à semelhança de uma criança.

Durante os seus dois anos de reinado tentou preparar a sua sucessão e alguns elementos possíveis se apresentaram, designadamente, Filipe II de Espanha, filho da princesa D. Isabel de Portugal casada com o Rei de Espanha, Dom António Prior do Crato, filho do príncipe Dom Luís casado com Dona Violante Gomes que não pertencia à nobreza e a Duquesa Dona Catarina, todos netos do rei Dom Manuel I e por conseguinte seus sobrinhos, entre outros, no entanto, a preferência do rei apontava para Filipe II de Espanha, enquanto o povo dava a sua preferência a Dom António Prior do Crato, só que o rei não gostava dele dado não concordar com o casamento dos pais. Enfim, preconceitos!

Morre o Cardeal Rei sem nada estar decidido e Dom António Prior do Crato assumiu a coroa e governou no Continente no período de Junho a Agosto de 1580, no entanto, Filipe II de Espanha não gostou da graça e mandou um exército comandado pelo Duque de Alba que em 25 de Agosto de 1580 travou batalha com o primo António Prior do Crato, em Alcântara que o desbaratou e venceu.

De resto era de esperar dado a má preparação do seu pequeno exército, assim, uma vez vencido fugiu acabando por refugiar-se em Linda-a-Velha no Casal da Ninha (espaço ocupado pelo Palácio dos Aciprestes). Partindo para os Açores ainda reinou de 1580 a 1583 em várias Ilhas, tendo chegado a cunhar moeda, mas, uma vez afastado, partiu para Paris (França) onde morreu no dia 26 de Agosto de 1595, tendo sido sepultado no Convento de São Francisco.

Filipe II assumiu a coroa de Portugal como Filipe I, seu filho como Filipe III de Espanha e II de Portugal e seu neto como Filipe IV de Espanha e III de Portugal e nesta sucessão governaram este País durante sessenta anos, período durante o qual pouco foi feito em favor de Portugal e bastantes valores se perderam tendo alguns portugueses menos escrupulosos vendido-se aos espanhóis e a troco de meia-dúzia de patacos delatavam o que viam e ouviam e muitas coisas inventavam e os castigos eram severos e constantes e o povo andava cada vez mais triste e oprimido.

Aquando do reinado de Filipe III este era representado em Portugal por Dona Margarida de Sabóia vice-rainha e Duquesa de Mântua, tendo entretanto o escrivão da Fazenda do Reino Miguel de Vasconcelos sido nomeado pela Vice-Rainha Secretário de Estado, este homem, porém, não passava de um renegado, um escroque que tanto mal fez ao povo seu irmão.

Os tempos que corriam eram difíceis e o povo cada vez estava mais amesquinhado e maltratado, sendo cometidas as maiores atrocidades e aplicados impostos insuportáveis, situação que levou a que alguns valorosos elementos começassem, na mais completa obscuridade e segredo, a conspirar contra este estado de espírito e a forma de pôr termo ao regime de terror e opressão, tendo estas reuniões iniciado no ano de 1637 cujo local de realização era sempre mudado, e culminado com a inesperada e abrupta entrada dos revoltosos no Paço da Ribeira apanhando de surpresa Miguel de Vasconcelos que sem hipóteses de fugir se escondeu num armário papeleira e depois dos revoltosos terem corrido todos os salões e gabinetes de trabalho sem que vissem o Miguel de Vasconcelos estavam a ficar desanimados mas, ao passarem pelo tal armário, cujas dimensões não seriam muito grandes, ele mexeu-se fez barulho e logo o abriram tiraram para fora e crivaram de balas e em seguida foram a uma janela e atiraram-no para fora e uma vez na rua o povo que ali se encontrava, enfurecido, pontapeou-o e cortou-lhe a cabeça que, uma vez enfiada num pau, passearam-na em grande algazarra e alegria pelas ruas de Lisboa, enquanto o resto do corpo ficou à mercê dos cães vadios.

No caso da Vice Rainha Duquesa de Mântua foi convidada a sair o que não aceitou ao que os revoltosos lhe disseram que se não saísse pela porta sairia pela janela e ela que tinha visto o triste fim de Miguel de Vasconcelos saiu. Estávamos a 1 de Dezembro do ano de 1640 dia em que graças à acção desenvolvida por este grupo de valorosos homens se restaurou a independência de Portugal.

Seguidamente foi convidado o Duque de Bragança Dom João a residir no Palácio Ducal de Vila Viçosa para assumir a coroa de Portugal, tendo mostrado algumas reticências o que não aconteceu por parte da sua mulher Dona Luísa de Gusmão que logo disse: “antes ser rainha por uma hora do que duquesa toda a vida” e assim D. João foi coroado como D. João IV e iniciada a quarta dinastia.

Finalizo este historial lamentando que o Estado Português tenha decidido decretar a anulação do feriado nacional no dia 1 de Dezembro deixando de festejar e homenagear a heroicidade deste punhado de valorosos restauradores da independência de Portugal, evitando, pela sua acção, que este País que foi grande entre os maiores que deu novos mundos ao Mundo, foi berço de Santos e Heróis, hoje mais não fosse que uma província espanhola, esperando, que muito oportunamente, esta situação seja revista e o feriado reposto. 

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FALANDO DO APARECIMENTO DA IMAGEM DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO DA ROCHA E A SUA INFLUÊNCIA SOBRE LINDA-A-VELHA

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Joaquim Fernandes  in 28 de Outubro de 2013 

Estamos a 28 de Maio do ano de 1822 quando alguns rapazes de Carnaxide, Linda-a-Pastora e Linda-a-Velha, brincando na Rocha, perseguiram um melro que não conseguiram apanhar. Entretanto, viram um coelho entrar num buraco e resolveram escavá-lo, ao fazê-lo depararam com uma pequena gruta onde encontraram algumas ossadas humanas e uma pequena Imagem de Nossa Senhora envolta num desgastado manto de seda lavrado a fio de ouro. Logo fizeram grande alarido sobre o achado e apareceram caçadores que por ali andavam à caça, sendo posta aos olhos do mundo a pequenina Imagem e, rapidamente, aquela descoberta passou de boca em boca e o povo em grande aglomeração ali acorreu por devoção e curiosidade.

Entretanto a Imagem desapareceu e, quando já se chorava o seu afastamento, esta voltou a aparecer junto a uma oliveira, sendo de imediato colocada na gruta.

A situação chegou ao conhecimento da Casa Real em Queluz que, no dia 27 de Julho de 1822, ordenou que a imagem fosse transladada para a Basílica de Santa Maria Maior anterior nome dado à Sé Patriarcal de Lisboa, atendendo que o local da aparição não seria o mais próprio para o culto público. E assim, no dia 5 de Agosto do mesmo ano de 1822, uma força comandada pelo General Sepúlveda foi buscá-la à gruta da Rocha no Vale de Carnaxide e levaram a tosca e enegrecida Imagem perante a indignação, a mágoa e os protestos do povo das aldeias circunvizinhas que, sem explicação de maior, a viram afastar-se.

Independentemente deste episódio, que muito entristeceu o povo, este não parou e deitou mãos à obra, avidamente, começando a construir um Santuário dedicado à pequenina Imagem aparecida, obra essa que por ordem do Governo Liberal foi suspensa no ano de 1833, situação que se manteve cerca de cinquenta anos, até que o Estadista e grande poeta Tomás Ribeiro, agora a residir em Carnaxide na Casa Branca, sendo um homem de fé apaixonou-se por esta causa e, vendo a tristeza do povo, utilizou a sua grande influência junto do Governo, conseguindo deste autorização para que a Imagem regressasse não para a gruta onde apareceu mas para a Igreja Paroquial de São Romão em Carnaxide, o que aconteceu no dia 30 de Outubro de 1883, saindo da Sé Patriarcal em cortejo processional até ao Arsenal da Marinha e daí em cortejo fluvial até à Cruz Quebrada onde voltou a seguir em procissão até Carnaxide, sendo recebida pelo rei Dom Luís, sua esposa Dona Maria Pia e vários membros da Corte. A partir daí muitos nobres passaram por aquele local em visita e oração.

As obras do Santuário foram reiniciadas decorrendo com grande força e entusiasmo e embora a Imagem ali ter entrado, sem grande aparato, no dia 1 de Setembro de 1892, as obras só foram concluídas no dia 28 de Maio de 1893, tendo o mesmo sido inaugurado pela Rainha Dona Amélia de Orleans e Bragança, o Príncipe da Beira Dom Luís Filipe e seu irmão Dom Manuel. Foi uma festa magnífica e da Casa Real algumas peças de grande valor foram oferecidas e durante anos as tradicionais festividades em Honra de Nossa Senhora da Conceição da Rocha têm sido levadas e efeito sempre no último Domingo do mês de Maio.

Durante a permanência do Padre Francisco dos Santos Costa como Capelão do Santuário foi criado no grande salão, na parte superior, um pequeno Museu com alguns objectos provenientes de promessas, alguns livros valiosos e umas boas dezenas de mantos da Imagem, encontrando-se também expostas fotografias do Rei Dom Carlos e da Rainha Dona Amélia, oferecidos pela Casa de Bragança. A Rainha, o Rei D. Manuel II e alguns elementos da Corte partiram para o exílio em Inglaterra no ano de 1910, aquando da implantação da República, não tendo a Rainha chegado a conhecer Fátima quando no ano de 1917 Nossa Senhora ali apareceu. Assim, quando aceitou o convite do Professor Salazar para visitar Portugal, no ano de 1947, a sua primeira visita foi àquele lugar sagrado onde rezou aos pés da Mãe do Céu e lhe ofereceu um dos seus mantos de corte.

Durante muito tempo a festa ou feira da Rocha foi considerada das mais importantes e badaladas do Distrito de Lisboa, sendo frequentada por gente vinda dos mais diversos lugares quase não havendo espaço para todos se sentarem e comerem as comezainas que traziam, utilizando para o efeito todos os montes e ladeiras e, inclusivamente, as margens do Rio Jamor. Todos os lugares estavam apinhados de gente, sem qualquer espaço disponível, apesar dos restaurantes ali existentes também se encherem, além das muitas bancas de leitão assado da Bairrada, queijadas de Sintra e cavacas das Caldas da Rainha entre outras especialidades.

E toda esta gente que só no final do dia, já noite dentro, regressavam a casa, levava, normalmente, consigo como lembrança uma peça de loiça de barro vendido numa ladeira junto ao Santuário e a Rocha, antes um ermo, foi transformada num sítio aprazível, fresco e convidativo. Para que tudo isto pudesse acontecer teve larga influência a acção desenvolvida pelo poeta Tomás Ribeiro o autor do “Mensageiro de Fez” e em sua homenagem estes lugares inseriram o seu nome nas suas ruas o que aconteceu também em Linda-a-Velha, transformando a estrada de Algés/Linda-a-Velha a partir da Junca na Avenida Tomás Ribeiro o que aconteceu no principio do século dezanove, sendo então alterado o trajecto antes de terra batida que passava onde hoje se situa a nossa Rua das Biscoiteiras para o local onde se encontra, embora com um piso mais esmerado.

Mas voltando à Rocha, Linda-a-Velha possuía e possui a sua estrada directa o que manteve até meados dos anos quarenta, sendo esta cortada aquando da construção da auto-estrada, com a promessa da abertura de uma passagem o que nunca aconteceu.

Foram ajardinados os espaços envolventes do Santuário e aproveitando uma nascente junto ao mesmo foi construída uma bica com um grande lago com peixes, onde por vezes algumas rãs coaxavam.

Havia gala e regozijo em manter aquele lugar bem asseado e aprazível. Entretanto, a nascente junto ao Santuário foi considerada milagrosa e muita gente com problemas de saúde a procurava. Lembro a minha querida avó Teresa já muito mal e prestes a falecer pediu água daquela fonte para poder morrer em paz e ali se deslocaram apressadamente desde a Portela da Ajuda até à Rocha, a pé pois não havia transporte e, após ter bebido um pouco daquela água faleceu santamente. Este é um dos casos que conheço embora outros semelhantes se verificassem. Era frequente verem-se filas de gente procurando beber daquela fonte cuja água além de fresca era puríssima e passado algum tempo foi aquele espaço aplanado, tratado e ali colocado um busto de Tomás Ribeiro. Enfim era um recanto bonito, muito agradável que, durante anos Linda-a-Velha reclamou como seu.

Hoje a água está inquinada, o lago onde os peixes morreram está sujíssimo, o jardim deixou de existir dando lugar a um matagal de grandes ervas secas, os lagos onde não mais correu água são estrumeiras, a casa do jardineiro já sem portas é abrigo de bicharada e não só. Uma tristeza!

A Irmandade em exercício devia preocupar-se com o estado lastimoso em que tudo isto se encontra e reclamar junto das entidades competentes, designadamente, a Câmara Municipal de Oeiras e a Junta de Freguesia, a recuperação daquele lugar pois isso também será uma maneira de honrar Nossa Senhora.

Há anos, não posso precisar a data gatunos servindo-se de uma escada entraram pela calada da noite no Santuário, usando a janela do coro e a partir daí, sem qualquer escrúpulo, roubaram peças valiosíssimas entre estas a base em que assentava a veneranda imagem de Nossa Senhora, uma peça de valor incalculável contendo ouro, prata e algumas pedras preciosas, deixando a Imagem deitada sobre o altar. Foram encetadas todas as diligências possíveis e imagináveis, inclusivamente, a nível internacional, mas apenas apareceram algumas peças de somenos valor, quanto à base da Imagem jamais apareceu e hoje, a mesma encontra-se sobreposta sobre uma base de madeira dourada.

Da velha feira pouco ou nada existe e se não fossem mantidas as solenidades religiosas agora enriquecidas com a solene procissão da Imagem cuja iniciativa se deve ao saudoso Capelão Padre Francisco Santos Costa, a tradição não seria cumprida.

Sendo o Santuário procurado, frequentemente, para casamentos, baptizados, peregrinações e outras cerimónias devia haver a preocupação em alindar os espaços envolventes e serem diligentemente cuidados. Enfim serem vistos com olhos de ver.

Este rectangulozinho recortado que é PORTUGAL que encerra tantas belezas naturais e tantos valores que nos foram legados, é uma pena vê-los degradarem-se de dia para dia sem a menor preocupação, deixando-nos cada vez mais pobres.

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