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RECORDANDO AS TRADICIONAIS FESTIVIDADES EM HONRA DE NOSSA SENHORA DO CABO

Festas de N.S.Cabo

Joaquim Fernandes in 2013 Setembro/01

Decorrendo nesta primeira semana de Setembro o nosso adeus à Imagem do Círio de Nossa Senhora do Cabo Espichel que aqui esteve durante um ano, regressando somente no ano de 2038 e sendo Ela a excelsa Padroeira da Vila de Linda-a-Velha desde o ano de 1780, entendi recordar as festividades que desde aquele ano têm vindo a ser feitas em Sua homenagem.

Linda-a-Velha em festa, festa saloia, no ar estralejam foguetes. Há arraial, quermesse, cavalhadas à antiga portuguesa, comes e bebes no bar/restaurante e é assim que se cumpre a tradição iniciada no ano de 1780.

Muito cedo, algumas semanas antes, começam os preparativos, desde o espetar no chão os mastros para as bandeiras com símbolos festivos, enfeitados com folhas de palmeiras e unidos entre si com grandes correntes de argolas de papel e cordas de bucho, os contactos com os feirantes, a construção de barracas e da quermesse, alindam-se os espaços e procede-se à electrificação das ruas sem esquecer a Capela e o Coreto onde são colocadas lâmpadas coloridas.

Os preparativos já por si constituem uma festa e embora entre os festeiros algumas vezes se verifique um diz que diz e algum desaguisado, as situações são ultrapassadas e todos colaboram de boamente com entusiasmo e dedicação.

A Capela que só nesta altura abre as suas portas ao público, era assim nos anos quarenta/ meados dos anos cinquenta a que fazemos referência neste memorial, é cuidadosamente limpa das teias de aranha, do pó e convenientemente lavada pela Sr.ª Antónia Pereira sempre contratada pelas zeladoras do templo, as senhoras Barros, eram areados os metais, limpo o lustre de cristal pelo Sr. Simões, o qual, na época, funcionava com velas de cera, eram pedidas emprestadas algumas cadeiras bonitas a famílias endinheiradas para sentar os Sacerdotes, um jarro e bacia em prata e respectiva toalha de linho para o Lavabo e alguns outros apetrechos eram trazidos da Paroquial, de Carnaxide, tais como, castiçais, andores, órgão, turíbulo e naveta, o palio, etc. e depois de ornamentada com as mais belas flores a Capela que é linda ficava ainda mais linda, estando tudo a postos para as cerimónias.

Entretanto, as raparigas em grandes seroadas faziam nas casas de umas e de outras grandes correntes de argolas e flores de papel e milhares de rifas, muitas rifas sem quaisquer prémios, porquanto, as rifas premiadas são feitas pelo responsável da quermesse consoante as prendas obtidas nos peditórios feitos porta a porta e que as raparigas transportavam em grandes alcofas, enquanto as cordas de bucho são preparadas por alguns dos festeiros com uma destreza invulgar, talvez pela força do hábito.

As melhores prendas conseguidas são leiloadas no final dos festejos, sendo normalmente escolhido para leiloeiro o Gregório de Carvalho Agostinho, o nosso Passarinho, que tinha muito jeito provavelmente por se tratar de um óptimo actor-amador de teatro.

Nas vésperas das festas, durante a noite, as raparigas tratavam da quermesse enfeitando-a com argolas e flores de papel e forrando os escaparates das prendas com papeis coloridos e arranjando lindos açafates para a colocação das rifas, enquanto o responsável organizava a lista com a numeração das prendas depois destas serem agrupadas por tipos de igualdade ou semelhança para uma melhor identificação e assim facilitar a imediata entrega aos premiados, cargo que me foi confiado durante oito anos consecutivos, tendo algumas vezes de resolver problemas provocados por indivíduos que, embriagados no bar, iam desembocar na quermesse provocando alguns disparates e consequentes gracejos por parte das raparigas que tinham que ser evitados antes que causassem problemas de maior e assim, uma vez ignorados, enfadavam-se e cambaleantes retiravam-se.

Chegados ao dia de Domingo logo pela madrugada a grande alvorada de foguetes e morteiros, abrindo as festividades, procedendo de seguida à abertura do bar, enquanto as raparigas que normalmente estreavam fatiota nova, procediam à colocação de pequenas florinhas de papel nas lapelas dos casacos dos homens, a troco de meia dúzia de tostões que, no final, quando contabilizados, rendiam uns bons trocos e, depois de acabada a colocação da flor era aberta a quermesse. Antes, porém, ao meio-dia, é cantada Missa pelo nosso Prior secundado por dois Sacerdotes convidados para o efeito, havendo ainda um outro que tinha a seu cargo o sermão proferido do púlpito devidamente ornamentado, sendo quase sempre debatido o aparecimento da Imagem de Nossa Senhora do Cabo Espichel, enquanto o organista e cantores vindos de Algés se ocupavam dos cânticos no Coro revestido de colchas vermelhas.

Terminada a Santa Missa a Capela mantinha as portas abertas para a visita dos devotos e colocação de velas nos grande tabuleiros junto à porta e o povo ia entrando, saindo e rezando e alguns colocando no Manto da Imagem de Nossa Senhora algumas notas do banco que, no final, constituíam parte do bodo que sempre se distribuía nesta época pelas pessoas mais carenciadas e por volta das 17:00 horas o sino tocava alegremente enquanto a Banda contratada dava os primeiros acordes.

O povo junta-se e sai a Cruz ladeada por lanternas o logo de seguida o andor do Menino Jesus que os garotos disputam entre si, fazendo os restantes grandes filas de guarda-de-honra, segue-se a imagem de Santa Filomena transportada pelos Bombeiros de Carnaxide, as imagens de Santo António e do Sagrado Coração de Jesus, até que saiem os festejados São Sebastião cujo andor é transportado por soldados e marinheiros para o efeito escalonados pelos seus superiores e logo atrás ao som de palmas e ribombar de morteiros o andor de Nossa Senhora do Cabo envergando o seu melhor manto, sendo este sempre pegado por homens nascidos na terra ou que aqui residiam desde muito pequenos, sendo seguido de algumas crianças vestidas de anjinhos e por fim o Pálio, cujas varas são pegadas pelos notáveis da terra e outros de reconhecido destaque e algumas individualidades da Câmara Municipal de Oeiras e do Exército e Marinha cujos quartéis aqui estão em plena actividade. De todos estes elementos permito-me destacar o Corregedor Dr. Joaquim Gonçalves Cerejeira, irmão de Sua Eminência Reverendíssima o Cardeal Patriarca Senhor D. Manuel Gonçalves Cerejeira que, apesar da sua idade e precária saúde, sempre se dispôs a fazê-lo. O nosso Prior secundado pelos dois Sacerdotes transportava o Santo Lenho e o povo ao vê-lo passar reverenciava-se ou ajoelhava. Atrás a Banda e o povo em grandes filas cantava e rezava solenemente.

Das janelas e, raras eram as que assim não se apresentavam, pendiam as mais bonitas colchas, havendo verdura e pétalas de flores pelo chão durante o percurso da Solene Procissão e logo que esta recolhia à Capela o sino voltava a tocar alegremente e terminavam as solenidades religiosas.

Entretanto, a Banda subia ao Coreto e à noite, um qualquer conjunto, abrilhantava o baile.

No segundo dia das festas voltava a haver alvorada de foguetes e morteiros e por volta das 11:00 horas Missa em honra de S. Sebastião sempre tão festejado nesta terra e à tarde tínhamos as cavalhadas à antiga portuguesa no campo onde hoje está instalado o Mercado Municipal, saindo o cortejo da Academia Recreativa, lá vinham os carros de bois cedidos pelo lavrador Júlio José Vitorino, enfeitados com palmeiras e flores de papel, transportando as raparigas da quermesse vestidas à moda do Minho o que nunca compreendi visto Linda-a-Velha ter traje próprio, outro transportando as prendas das cavalhadas constituídas por animais de criação, vinhos diversos e frutas, quase sempre melões e melancias e os festeiros organizadores daquele evento e outro ainda com o conjunto que actuava aquando da saída das prendas e estes precedidos dos cavaleiros que, garbosamente, montavam cavalos enfeitados com fitas coloridas, sendo estes os Victorinos aqui residentes os Zenidas de Outurela e alguns outros de Carnaxide e de Paço-de-Arcos.

Distribuídas as setas e colocadas as prendas nas gaiolas com uma argolinha que os cavaleiros em corrida procuravam tirar com a ponta da seta. Conseguiam levavam a prenda e o conjunto tocava animadamente, não conseguiam nada acontecia e tudo continuava até terminarem as prendas e, consequentemente as cavalhadas. Às vezes, por graça, aparece o neto vestido a preceito montando um burro e com o animal parado tenta conquistar a última prenda quase sempre um pombo que, ao abrir a gaiola, este bate as asas o que provoca algumas gargalhadas e é neste ambiente que decorrem as cavalhadas. Depois lá estava a quermesse, os petiscos do restaurante, o bailarico e as demais distracções.

No terceiro e último dia das festas é rezada Missa pelas intenções dos mordomos vivos e sufrágio dos falecidos e no final do dia terminavam-se as últimas rifas quando havia e procedia-se ao leilão das melhores prendas largamente regateadas, o habitual bailarico e assim terminavam as festividades com grande alegria e regozijo e depois de feitas as contas e liquidadas as despesas, as sobras revertiam a favor da Academia Recreativa. Em seguida desmontavam-se as armações, as barracas e barraquinhas e a partir daqui só no ano seguinte se repetia toda esta azafama e neste memorial tenho, necessariamente, de recordar os grandes festeiros Joaquim Maria da Cunha Gonzaga, Jorge das Neves Gomes e Augusto Berneaud que há muito nos deixaram.

Em relação às festividades que hoje são realizadas, embora a Vila de Linda-a-Velha mantenha uma população de cerca de 30.000 habitantes, não chegam sequer a ser uma similitude das que antes eram feitas quando os seus habitantes seriam pouco mais que 220, porém, mantêm-se a tradição com mais ou menos brilhantismo, correspondendo assim ao grato tributo que um punhado de homens e mulheres de boa vontade um dia nos legaram a partir do longínquo ano de 1780.

 

 

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