RECORDANDO A VELHA ACADEMIA RECREATIVA!

Teatro na Academia no séc.  passado (4)

 

Joaquim Fernandes in 22 de Junho de 2013

A Academia Recreativa de Linda-a-Velha foi fundada no Século dezanove, mais concretamente no dia 8 de Outubro de 1893 numa velha casa que existiu na Calçada do Chafariz, bem junto à taberna do Sr. Luís da Chalaça.

Esta nossa casa de espectáculo de grandes tradições foi depois transferida para a Rua Fontes Pereira de Melo onde ainda hoje se situa.

Quando o dono do imóvel o pretendeu vender o povo reuniu-se e esforçou-se no sentido de adquirir o dinheiro suficiente para a sua aquisição evitando assim o seu possível desaparecimento. Para o efeito foram feitos títulos de empréstimo cujos valores mais tarde o povo ofereceu.

No ano de 1953 foi preciso adquirir uma nova bandeira pois a existente estava bastante danificada e mais uma vez o povo foi chamado a contribuir em peditório feito porta a porta.

No decurso de um baile foi mostrada a nova bandeira com discursos de circunstância e em sinal de despedida da velha bandeira esta foi passada por todos os presentes que nela colocaram algumas moedas. Posto isto, a nova bandeira subiu ao mastro da Academia com um forte aplauso.Era Presidente da Direcção o Sr. Joaquim Maria da Cunha Gonzaga.

Na época as nossas festas eram simples, como simples era o bom povo desta terra.

Era na Academia ou Sociedade como alguns lhe chamavam que os jovens realizavam os seus espectáculos de teatro amador de reconhecido mérito e extraordinária qualidade e também alguns grupos do exterior passaram pelo seu palco, designadamente da Cruz Quebrada e os Rentini de que fazia parte o actor Camilo de Oliveira e sua irmã Zurita de Oliveira.

Além do teatro foram ali organizados bailes de renome de que ainda hoje os mais velhos se recordam, designadamente, o Baile dos Xailes, dos Vestidos de Chita, das Fitas, dos Aventais, dos Lenços. Enfim, um ror de motivos, sem esquecer o Carnaval com o concurso das melhores máscaras.Quase todos os sábados havia bailarico com o conjunto da terra ou do exterior e o povo divertia-se. Era giro!

Aliados a estas festas e festinhas manteve esta Academia uma excelente Banda

Filarmónica que lamentavelmente desapareceu, um Rancho Folclórico e a Marcha de Linda-a-Velha que chegou a ser premiada com diploma de honra e, consequentemente o seu ensaiador Sr. António dos Santos, um velho adorável, pequenino, brincalhão com graça natural e espírito jovial que morava quase paredes meias com a Academia. Recordamos também outras bandas que aqui vinham exibir-se, designadamente a banda de Linda-a-Pastora sempre garbosa e a rigor e as cegadas que por aqui mostravam as suas habilidades no período decorrente entre o Carnaval e a Páscoa.

Como qualquer academia de aldeia mantinha nas suas paredes fotografias emolduradas de alguns notáveis e beneméritos da terra e numa vitrina o seu estandarte colorido recamado de fitas e troféus.

Mantinha ainda a Academia uma excelente Biblioteca com bastantes livros dedicada a Tomás Ribeiro (escritor) cujo busto foi oferecido por uma sua neta.

Mais tarde foi entendido fazer-se nos alicerces da Academia um bufete e foi o povo que cavou e abriu o espaço destinado ao efeito e aí vimos a cavar pessoas que nunca na vida haviam pegado numa enxada, inclusivamente eu próprio e o entusiasmo era tanto que Gregório de Carvalho Agostinho mais conhecido pelo Passarinho, natural de Linda-a-Velha, no dia do seu casamento deixou tudo e todos e ali esteve a cavar.

Era assim Linda-a-Velha e a sua gente de outros tempos.

Mas passando ao teatro, o ponto forte da Academia, tinha esta casa de espectáculos dois bons grupos de teatro amador “Os Académicos” e os “ Infantes”.

Talvez houvesse uma certa rivalidade entre os dois grupos porque sendo Os Académicos os primeiros à partida tinham uma maior experiência de palco e, no caso de  Os Infantes quase todos haviam saído do teatro infantil organizado pela grande amiga e benemérita Iza Marinho Goulão e, por conseguinte mais novos.

Foi assim que foram levadas à cena naquele palco de saudosa memória algumas das peças e dos seus intérpretes que, a título de homenagem aqui recordamos:

“ O Hotel Modelo”

Uma peça muitíssimo engraçada de que destaco as excelentes interpretações de Jorge das Neves Gomes no papel de surdo e João Saldanha.

“ Justiça”

A acção dramática desenvolvida pelos seus intérpretes atingiu momentos muito fortes de que destacamos Virgílio de Carvalho e José David respectivamente nos papéis de Tio Ezequiel e Padre João.

“ Um Capitão de Lanceiros”

Uma engraçada comédia de que destacamos a Estefânia Teles de Brito (a Farinha) que se travestiu para o papel de Faustino.

“ O que é que a baiana tem”

Que bem, que bem que José Coelho desempenhou o papel de Tertuliano Trancoso um brasileiro endinheirado pai da menina Mercedes papel desempenhado por Luzia Santos, cujo nome era igual à marca das máquinas de escrever que negociava, o que provocava uma enorme confusão. Foi uma comédia que provocou constantes gargalhadas.

“ Os Pupilos do Senhor Heitor”

Esta comédia foi levada à cena na Academia no dia 26 de Abril de 1947 mas teve um largo percurso sendo representada nas mais diversas salas de espectáculos das aldeias circunvizinhas e não só.

Destacamos Gregório de Carvalho Agostinho (Passarinho) no papel de Heitor Roldão, Pedro Evangelista e Amália Crispim Ferreira nos papéis de Manuel e Rosa.

“ Efeitos de Foot-Boll”

Foi futebolista enamorado, o galã desta comédia, Pedro Evangelista, um jovem cheio de talento e uma enorme paixão pelo teatro.

“A arte de Montes”

Destacaram-se Silvéria Reis Magalhães no papel de Marcela, uma mulher extremamente religiosa que vivia numa constante luta com o marido um aficionado pelas touradas e festas com touros que impedia o seu filho de ser Padre como ela desejava, papel brilhantemente desempenhado pelo Pedro Evangelista.

Por fim o rapaz não foi padre nem toureiro o que ele queria era casar e concluir o curso de medicina.

“ O Dedo de Deus”

Que grande drama, que excelente desempenho de João Saldanha no papel de Jacques, um compositor de música cuja mulher cantora lírica no Real Teatro de Milão havia morrido num naufrágio o que o levou à loucura e a todo o momento esperava o seu regresso. Alguém se servia da sua cultura e do seu saber como músico e, embora ganhando dinheiro e fama à sua custa, o procurava amesquinhar a todo o momento mas, por fim, aparece uma filha que ele não conhecia e pôs termo a esta vigarice e o final da história foi mesmo apontado pelo Dedo De Deus.

Acresce informar que João Saldanha era o pai da actriz Maria Vieira.

“Quem Matou”

Um drama em três actos da autoria do actor Chaby Pinheiro.

Foi morto o Sr. Guerin familiar de uma dama da corte de Luís XV de França. Há que descobrir quem matou?

O desenrolar dos acontecimentos em que marcaram posição Maria do Carmo Pinto (A Carminho) no papel de Irene Guerin e José de Sousa no papel de Detective.

Nesta peça assumi o papel de Júlio Guerin um vilão muito cínico como qualquer vilão.

Este drama dado o seu interesse e desempenho esteve para ser filmado utilizando para o efeito o antigo Palácio dos Arciprestes e os espaços que antes o envolviam. Fizeram-se estudos, marcação de cenas mas não chegou a concretizar-se.

“Anna Barraca”

Uma belíssima comédia com um guarda-roupa de grande envergadura senão luxo, em que se destacava Maria do Rosário no papel de Anna Barraca, Olímpia Costa no papel de Marquesa de Melgaço e Francisco Goulão no papel de “Manel”. Também marquei presença no papel de Conde de Frielas.

“ A Garra do Abutre”

Um drama em que assumi o papel de galã na figura do serralheiro Paulo. Foi brilhante a interpretação de José de Sousa no papel de Jorge um operário ambicioso e matreiro a quem a vida ensinou o caminho do bem.

“ Uns comem os figos”

Pisou o palco pela primeira vez a Maria Odete de Carvalho para interpretar e muito bem o papel da Senhora Viscondessa de São Barnabé uma velha pretensiosa e beata cheia de recordações do seu “defunto”. No meu caso e envergando uma ridícula casaca verde alface vinha da aldeia para casar com a sobrinha da velha senhora mas … as tramóias que arranjaram foram tantas que além de não casar ainda era posto na rua. Enfim é a vida!

E além destas tantas mais peças ali foram representadas no palco da Academia sempre com grande êxito e aplauso pelo bom povo da terra que amava os seus artistas e nunca se dispensava de os aplaudir.

Se as paredes daquela casa tivessem vida o que nos contariam. Seria bem possível que ainda se pudessem ouvir os vibrantes aplausos e o entusiasmo daquele povo humilde e bom que chorando e rindo animava os jovens actores a fazerem mais e melhor na arte de representar.

Depois, depois em Março de 1957 apareceu a televisão aquela caixinha mágica que mudou o mundo e tudo foi diferente, tudo se perdeu, pondo termo às exibições teatrais dos grupos residentes, bailes de renome, enfim tudo se modificou ficando apenas as memórias que o tempo não apagará jamais.

Contudo, não podemos esquecer que Linda-a-Velha foi um alfobre de bons actores e actrizes tendo alguns destes passado pela profissionalização entre estes o próprio signatário deste memorial.

Finalizando tenho, necessariamente, de afirmar que sou um apaixonado pela arte de representação, esta arte do faz de conta que nos permite viver outras vidas e ter posturas bem diferentes da nossa.

Ainda criança e sem nunca ter visto teatro eu inventava histórias e imitando vozes e personagens representava sozinho como entretenimento no terraço da minha casa, da casa onde nasci.

De nada me serviu ter-me profissionalizado, porquanto, a minha família nunca viu com bons olhos que eu fizesse profissão do teatro e a minha vida seguiu por outros caminhos, porém o bichinho do teatro não morreu e foi assim que depois de me ter reformado da actividade profissional que desenvolvi comecei a escrever algumas peças teatrais, dei aulas de teatro numa Universidade Sénior “ A USILA” em Algés e organizei um grupo de teatro que já levou à cena algumas das minhas peças.

Entretanto aquando da celebração do 117º aniversário da Academia Recreativa de Linda-a-Velha fui convidado para em colaboração com a poetisa Sr.ª D. Emília Venda, ali apresentarmos alguns poemas da sua autoria e não só e, recordando os velhos tempos de teatro da Academia e os seus personagens, proferi uma palestra que foi largamente aplaudida pretendendo assim homenagear todos os que pisaram aquele palco e já não se encontram no número dos vivos.

Dos que ainda se encontram connosco estiveram presentes Estefânia Teles de Brito (Faninha) Silvéria Reis Magalhães que, lamentavelmente também já nos deixou, Amália Crispim Ferreira e Gregório de Carvalho Agostinho ( Passarinho) e foi assim que voltei à Academia onde já não ia desde o ano de l957, tendo renovado a minha situação de sócio.

Termino este memorial reafirmando a minha saudade pelo palco e pela representação o que a vida e a saúde agora lamentavelmente não me permitem.

1 Comentário

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One response to “RECORDANDO A VELHA ACADEMIA RECREATIVA!

  1. manuela costa

    Boa noite, sou a filha da Olímpia Costa e vivi sempre na rua da academia. Fui ouvindo estórias que os meus pais contavam, de como importante este sitio foi para eles durante a sua juventude. Gostei muito desta estória e de ver o nome da minha mãe aqui representado.

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