Monthly Archives: Maio 2013

MAIS UM PEDAÇO DA HISTÓRIA DE LINDA-A-VELHA DE OUTROS TEMPOS!

Scan

 

Joaquim Fernandes in 5 de Maio de 2013 (Inspirado na acção desenvolvida pelo empresário José Pereira da Costa deu azo a todo este historial sobre Linda-a-Velha de outros tempos.)

Até ao final dos anos trinta Linda-a-Velha manteve em plena actividade uma fábrica de camisas, colarinhos e golas para os hábitos das freiras, na época solicitados com alguma frequência, que funcionava sob a direcção do Empreiteiro José Pereira da Costa e empregava mais de cem trabalhadores, na sua maioria do sexo feminino, tendo como depósito a Camisaria Moderna, com sede no Rossio em Lisboa. Na altura era esta fábrica que fornecia as diversas camisarias da Capital.

O pessoal desta empresa era constituído não só por trabalhadores de Linda-a-Velha como das aldeias circunvizinhas do Concelho de Oeiras, designadamente: Carnaxide, Outurela, Portela e Algés. A Fábrica situava-se na Avenida Tomás Ribeiro no extremo de Linda-a-Velha paredes-meias com a grande vivenda de Bento Araújo Victorino hoje remodelada, embora mantendo a traça primitiva. Nada mais havia a partir daqui, a não ser a freguesia de Carnaxide um quilómetro após.

Com a morte do empresário a fábrica terminou a sua actividade lançando no desemprego todo aquele pessoal numa altura em que a Regulamentação de Trabalho existente não salvaguardava devidamente os legítimos interesses dos trabalhadores. Vigorava então a Lei nº 1952 de 10 de Março de 1937 e ainda não estava criada a Segurança Social pelo que não havia subsídio de desemprego, reforma, enfim! Era uma pobreza completa, embora não houvesse desemprego.

Nesta conformidade as mulheres de Linda-a-Velha não ficaram paradas – não podiam ficar paradas – e as que não encontraram emprego nas diversas fábricas em actividade no Concelho de Oeiras, designadamente no Dafundo e Algés de Cima recorreram ao desempenho das funções de colarinheiras nas diversas lojas da especialidade em Lisboa, nomeadamente, Chiado, Grandela, Ramiro Leão, Eduardo Martins entre outras e assim passou a constituir hábito a sua deslocação todas as sextas-feiras. Com grandes trouxas à cabeça lá iam a pé até Algés onde apanhavam o “Amarelo da Carris” feito carro operário cujo bilhete de ida e volta custava sete tostões, a fim de entregarem as molhadas de colarinhos confeccionados (na época todas as camisas acompanhavam um colarinho suplente) e regressavam a Linda-a-Velha com semelhante trouxa de material a confeccionar. Tudo isto a troco de meia-dúzia de tostões que aliados aos parcos salários dos seus companheiros ajudava a fazer face à vida tão difícil na época em que todos os casais tinham vários filhos. Era dura a vida destas mulheres que embora com pouca cultura se entregavam ao trabalho de alma e coração.

A título de homenagem lembro os nomes de algumas destas colarinheiras: Albertina Oliveira, Maria do Amparo, Guilhermina Rão, Rosalina, Maria de Jesus, Maria da Luz, Luísa Santos, Catarina de Jesus, Palmira de Jesus, Dinora,  Regina e Irene entre muitas mais.

Entretanto as instalações da fábrica foram adquiridas pelos senhores Condes de Cabral que já eram proprietários da Vila Jorge uma zona residencial que pegava com a fábrica passando a constituir a habitação de algumas famílias designadamente: os Fortuna, os Furtado de Sousa, os Baptista, os Valente e os Constantino.

Sem nunca beneficiarem de quaisquer melhorias as casas começaram a degradar-se, as famílias foram morrendo, os filhos destas foram-se afastando e hoje tudo aquilo não passa de um montão de destroços que aliados ao velho Grémio Recreativo, importante sala de espectáculos onde se estrearam nas artes de representação os ilustres filhos desta terra actor-mestre Francisco Ribeiro (Ribeirinho) e o irmão deste o cineasta António Lopes Ribeiro com apenas nove anos de idade, cujas instalações também estão completamente degradadas.

Adquiridos todos estes espaços pelo empresário Mário Ferreira de Magalhães, numa altura em que a construção civil começava a decair, acabou por falecer sem ter realizado os seus objectivos de ali construir um grande parque habitacional.

Entretanto, a degradação acentua-se cada vez mais e o estado lastimoso em que se encontra uma zona que foi importante e nobre só envergonha os que por ali passam.

Linda-a-Velha, porém, soube na época homenagear José Pereira da Costa fazendo constar o seu nome da toponímia da terra, embora por tudo aquilo que deu merecesse uma rua com outra nobreza, outra envergadura e não um espaço tão estreito que se torna quase intransitável.

Lamentavelmente, nos nosso dias, o nosso Concelho de Oeiras não tem sabido homenagear devidamente os seus filhos ilustres e todos aqueles que adoptaram esta terra como sua, ignorando-os o que é pena pois, caso contrário já teria feito constar da toponímia da Vila: Joaquim Maria da Cunha Gonzaga – Regedor durante vários anos e que bastante deu a esta terra como Presidente da Direcção da Academia Recreativa e do Sporting Clube de Linda-a-Velha, Padre Manuel Martins que doou a esta terra um valioso complexo constituído pela linda Igreja Paroquial dedicada à Padroeira Senhora do Cabo, a Escola de Música e Dança e o Lar e Centro de Dia Padre Dehon (Centro Paroquial de Nossa Senhora do Cabo) que tem vindo a abrigar e cuidar de um grande grupo de velhinhos desta terra e não só e Iza Marinho Goulão que tão bem soube enobrecer esta terra no campo religioso cuja actividade já nos mereceu largo elogio. Mas fiquemos por aqui na esperança de que um dia seja ouvida a nossa voz e se faça justiça honrando os valores de uma pequena aldeia que cresceu, se fez grande e transformou numa importante Vila embora com algumas carências que seriam fáceis de solucionar se as entidades competente as observassem com olhos de ver.

2 comentários

Filed under Sem categoria