Monthly Archives: Abril 2013

UM PEDAÇO DA VIDA DE LINDA-A-VELHA DE OUTROS TEMPOS

IMG_0505

Joaquim Fernandes in 13 de Abril de 2013

Satisfazendo o que me foi sugerido pelo nosso queridíssimo Prior Senhor Padre José Luís Costa lembro o seguinte:

– Até meados dos anos cinquenta Linda-a-Velha teria não mais de duzentos habitantes distribuídos por oitenta casas de habitação, havendo, porém, grandes quintas que muito contribuíam para o abastecimento da cidade de Lisboa em produtos hortícolas e animais de criação.

Embora uma aldeia das mais bonitas do Concelho de Oeiras, cheia de Sol e de cor, com bastante água de nascente e um ar sadio que os doentes do físico procuravam para se restabelecerem dos males que os afligia, designadamente a tuberculose, não passava de uma terra de missão sem missionário, vivendo os casais na sua grande maioria em mancebia registada e outros nem tanto, havendo imensos analfabetos sem sequer serem baptizados.

Embora mantendo a linda Capela dedicada a Nossa Senhora do Cabo desde o ano de 1780 esta só abria as suas portas na primeira semana de Setembro para a celebração da Padroeira para o que era constituída uma Comissão de Festeiros entre as pessoas que, tendo aqui residência, vinham passar o verão e alguns outros habitantes da terra dos mais destacados.

Assim a Capela era limpa, asseada e devidamente ornamentada com flores oferecidas pela Sr.ª D. Maria do Carmo Mimoso cujo jardim era digno de ser apreciado e depois de adquiridas as licenças do Patriarcado para a celebração de três Missas estas eram celebradas sendo a primeira no primeiro Domingo de Setembro com grande cerimonial em honra de Nossa Senhora do Cabo e as outras respectivamente em honra de São Sebastião na época muito festejado nesta terra e pelas intenções dos mordomos vivos e sufrágio dos falecidos. Depois a Capela fechava as suas portas para no ano seguinte tudo se repetir.

Era assim Linda-a-Velha.

Nos anos trinta as meninas da Colónia, assim se chamava aos veraneantes e algumas das amigas que entretanto fizeram na terra efectuaram na Paroquial de São Romão de Carnaxide (Freguesia) pela primeira vez a sua Comunhão embora desconhecendo quem as preparou para o efeito se a professora primária se alguma das veraneantes, o certo é que estas fizeram a sua comunhão envergando vestidos confeccionados por modistas de renome, sendo qual passagem de modelos. A cerimónia foi presidida pelo Santo Padre Cruz e em que também tomou parte o Prior da Freguesia Senhor Padre António Patoleia.

Nos anos quarenta, mais propriamente no ano de 1946 a nossa grande benemérita Sr.ª D. Iza Marinho Goulão veio viver para Linda-a-Velha na esperança de salvar o seu filho mais velho José Joaquim, que havia contraído a tuberculose o que infelizmente não conseguiu acabando por falecer, que tomou a iniciativa de abrir a Capela ao público ao mesmo tempo que dava residência em sua casa a um sacerdote holandês Sr. Padre Bernardo que começou a rezar Missa diariamente apesar dos assistentes serem pouquíssimos.

Entretanto a SrªD.Iza Marinho Goulão foi porta a porta convidando as pessoas a passarem pela Capela para serem preparadas para o Baptismo e posteriormente, realizarem o casamento. Esta Senhora tinha uma personalidade muito forte e sabia impor a sua autoridade e foi assim que, na grande maioria, conseguiu realizar os seus objectivos e ao longo de algumas semanas se realizaram, diariamente, algumas dezenas de baptizados e casamentos.

No que se refere ao ensino da doutrina Cristã, indistintamente para os dois sexos, esta iniciou-se nos anos quarenta mais propriamente no ano de 1945, sendo ministrado por especial gentileza de duas senhoras vindas da Cruz-Quebrada pertencentes à Casa de Macedo – Condes de Cabral que aqui se deslocavam uma vez por semana.

Uma vez baptizados os que ainda não eram lá iam até à Paroquial de São Romão e aí celebravam a sua comunhão particular (1ª comunhão), a comunhão solene de profissão de fé e o Crisma.

Esta situação manteve-se até ao ano de 1950, data em que a Sr.ª D. Iza Marinho Goulão assumiu a responsabilidade e direcção da catequese e a organizou em moldes diferentes, sendo esta ministrada por elementos da terra, designadamente, Sr.ª D. Maria José d’Almeida, meninas Laura Maria Miranda Costa, Lourdes Farinha das Neves, Nazária Esteves, Maria Luíza Silveira, Maria Luíza Goulão, Joaquim Fernandes e, posteriormente Domingos Barroco. Acontecia, porém, que os elementos a catequizar, mais propriamente os rapazes não apareciam e havia que conquistá-los.

Assim, entendeu a Sr.ª Iza Marinho Goulão criar senhas de presença que depois eram trocadas por prémios bastante entusiasmantes como grande bolas de futebol, sapatos pois muitos andavam descalços, material escolar, livros de histórias, algum vestuário, enfim, coisas que na época lhes agradava pois era um época bem diferente da actual, sendo as possibilidades da família bastante rudimentares. De facto não havia desemprego mas os ordenados eram miseráveis.

E foi assim que muitos dos rapazes apareceram embora alguns destes nem assim se convenciam sendo preciso ir buscá-los a casa, ao campo de futebol na altura situado onde hoje está instalado o mercado municipal e outros aos campos onde armadilhavam ratoeiras para caçarem pardais.

Os pais destes contestavam esta nossa atitude e muitas coisas tiveram de ser suportadas e ultrapassadas, alguns impropérios, caras feias e más vontades, sendo muitas vezes acusados de estarmos a desviar as crianças para situações impróprias. Enfim, foi um período muito, muito difícil que com coragem, força de vontade e uma enorme confiança em Nosso Senhor tivemos de vencer e ultrapassar para podermos alcançar os nossos objectivos e se algumas das sementes lançadas se perderam muitas deram bom fruto pois quando se pôs termo às senhas de presença quer na catequese quer na Santa Missa as presenças já eram regulares e os pais davam a sua colaboração.

É evidente que por força do progresso Linda-a-Velha começou a crescer em grande força a partir do ano de 1955, aumentando assim o número de crianças na catequese e na Missa dominical e dias santos. A nossa Capela que tantos anos esteve fechada começou a ter uma vivência e actividade até aí impensada, organizando-se festas de teatro, variedades, concursos, sorteios de trabalhos realizados pelas crianças etc., festas estas que sempre finalizavam com óptimos lanches oferecidos pelos pais das crianças mais endinheirados.

Chegaram a tomar parte nestes espectáculos alguns artistas profissionais, designadamente, Maria José Valério, António Calvário, Milu Fontora que sem acompanhamento cantaram à capela, a pequena Ilda Isolina mais tarde actriz profissional e o signatário em teatro com uma peça do dramaturgo Marcelino Mesquita, um mágico cujo nome não me ocorre, marcando ainda presença a compositora e pianista Sr.ª D. Maria Helena de Carvalho e a grande actriz dos nossos palcos Sr.ª D. CORINA FREIRE criadora da canção Giestas estreado no ano de 1925 na revista “Rosas de Portugal” levada à cena no Teatro Éden em Lisboa.

Chegou a fazer-se um bodo com distribuição de camisolas, calções, saias, sapatos e livros de histórias pelas crianças mais pobres com dinheiro obtido através de peditório público feito pelo signatário acompanhado de algumas das crianças da catequese.

Também foi feito pela primeira vez um grande presépio sendo as palhinhas da manjedoura conquistadas pelas crianças através de boas acções praticadas. Em todos os casos foi excelente a colaboração das crianças e o seu entusiasmo digno de registo.

Ainda organizado pela Sr.ª Iza Marinho Goulão foi promovido o teatro infantil com grande êxito e aplauso na Academia Recreativa de Linda-a-Velha.

Deixou a Sr.ª D. Iza Marinho Goulão as suas funções pois a idade não perdoa, sendo estas assumidas pela Sr.ª D. Joaquina Monteiro que também realizou um óptimo trabalho contando-se com a criação de uma pequena Biblioteca para as crianças com a colaboração do signatário. Esta Biblioteca era dirigida pelas próprias crianças, sendo bibliotecário o Fernando Maria Ribeiro cujo pai foi a pessoa que mais me ofendeu quando passava pela sua casa para trazer o filho para a catequese, nesta altura um amigo colaborante.

Quanto a sacerdotes que durante este período passaram pela Capela tivemos além do Sr. Padre Bernardo, o Capelão Sr. Padre Abílio Reis Lima um grande missionário a que se seguiu o Sr. Padre Higino Duarte.

Entretanto a nível religioso a freguesia de Carnaxide separou-se de Algés, Cruz Quebrada e Dafundo e foi com grande saudade que vimos partir o nosso Prior Sr. Padre Manuel dos Reis Escudeiro, assumindo as suas funções como Prior de Carnaxide o Sr. Padre Francisco dos Santos Costa e neste entretanto Linda-a-Velha continuava a crescer a olhos vistos.

Passado algum tempo o Sr. Padre Francisco Santos Costa deixou a Freguesia ficando apenas adstrito à Capelania do Santuário de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, tendo as suas funções sido assumidas pelo Sr. Padre Manuel Martins que trouxe com ele dois excelentes catequistas os seminaristas João Nóbrega e Jacinto Farias, hoje excelentes Sacerdotes.

Linda-a-Velha continuou a crescer de dia para dia a Capela tornou-se insuficiente para tanta gente e assim foi erigida por iniciativa do Sr. Padre Manuel Martins a Igreja do Sagrado Coração de Jesus no ano de 1978.

Deixei a catequese depois de 20 anos de intensa actividade e o cargo de vogal da Direcção que assumi depois da saída da Sr.ª D.Maria José de Almeida sendo o primeiro elemento do sexo masculino a exercer as funções de catequista em Linda-a-Velha e Carnaxide, tendo sido homenageado por Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Cardeal Patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira

Finalizo este relato dizendo que tive que suportar algumas amarguras para atingir os objectivos a que me propus quando assumi as funções de Catequista, pelo que dou graças a Deus.

7 comentários

Filed under Sem categoria